Alfie Evans e o Bebê Real: Entre a Moral e a Razão

Publicado em 27/4/2018 por: Maria Clara Bingemer

O mundo inteiro distraiu-se um pouco de suas mazelas nos últimos dias para voltar os olhos para Londres. Ali, na porta do hospital st. Mary, apareceram o príncipe William da Inglaterra, acompanhado de sua esposa Kate, duquesa de Cambridge, para apresentar ao povo inglês o novo bebê real. Com eles, os outros dois filhos, George, de 5 anos, Charlotte, de 2. O caçula é um menino e ainda não teve seu nome divulgado. Bela família, feliz, saudável e aplaudida.

Enquanto isso, no hospital Alder Grey, em Liverpool, outra família sofre e clama pelo direito de tentar mais um recurso para salvar a vida do filho. Alfie Evans é um bebê de 23 meses acometido de uma doença degenerativa rara, que o fez ter um retardo em seu desenvolvimento. O médico procurado à época disse que ele era preguiçoso, gostava de dormir e custaria mais do que os bebês normais a se desenvolver. No entanto, uma severa infecção levou à primeira internação do menino. Depois mais outra e mais outra. Finalmente, Alfie acabou permanecendo internado, pois depende de aparelhos para ajudá-lo a respirar e se alimentar.
Os pais de Alfie, Tom e Kate, afirmam que o filho está lutando com todas as forças que armazena em seu pequeno corpo combalido pela doença. E não querem de forma alguma que os aparelhos sejam desligados. Pela internet circulam vídeos e fotos do pequeno piscando e fazendo gestos, mostrando que está vivo. O hospital e sua equipe de médicos mantiveram-se inamovíveis na convicção de que o pequeno Alfie deve ser desconectado dos aparelhos que lhe dão suporte e passar a receber apenas cuidados paliativos. O caso foi à justiça.
Tom e Kate não aceitam esta decisão e já que não eram ouvidos nos tribunais de seu país, apelaram para o mundo. Nas redes sociais, criaram-se sites e grupos em favor do direito de Alfie de continuar vivendo. Finalmente, a Itália se dispôs a receber a família Evans. O menino viajaria em um avião equipado com todos os recursos e seria levado a um hospital para ali receber outros cuidados e tentar avançar em sua luta pela vida.
Nos últimos dias, após o último recurso jurídico perdido por Tom e Kate Evans, Alfie foi desconectado dos aparelhos. Porém, até o momento em que este artigo foi escrito, continuou respirando sozinho. Segundo os pais narram, essa não foi a única vez em que isso aconteceu. Em outros momentos em que quiseram desconectá-lo dos aparelhos que lhe dariam suporte para respirar e alimentar-se, Alfie também conseguiu respirar sozinho e o hospital foi obrigado a reconectá-lo. Mas nestas ocasiões ainda não havia a decisão jurídica final. Uma vez que esta chegou, Alfie foi desligado da vida.
A situação neste momento é dramática. Por um lado, Alfie continua vivo sem o suporte de nenhum aparelho. Há um avião pronto para decolar da Itália para ir buscá-lo e à sua família em Liverpool. Até a cidadania italiana lhe foi dada para reforçar mais a disposição do país em recebê-lo e contornar possíveis dificuldades migratórias. Ali usariam procedimentos até agora não utilizados como traqueostomia, a fim de tentar chegar a um diagnóstico mais preciso sobre sua saúde e traçar um novo plano de tratamento.
A justiça inglesa não permite que isso seja feito e o hospital recusa-se a dar oxigênio para que o menino respire e soro para alimentá-lo. Após o desligamento dos aparelhos de suporte, se eventualmente o paciente continua com os sinais vitais, seria obrigatório fazê-lo. Mas o hospital argumenta que o caso de Alfie não tem esperança. Há que oferecer-lhe apenas cuidados paliativos, para que não sofra.
Os pais não desistem e fazem nele respiração boca a boca para ajudá-lo a respirar e viver. E continuam lutando na justiça, acreditando que seu bebê merece todas as chances para continuar vivo. Mostram ao mundo os relatórios hospitalares de Alfie, onde é comprovado que não está sentindo dor nem sofrendo. Reivindicam seu direito de tomar a decisão que envolve a vida do filho. Argumentam que há outros países que querem recebê-lo e tentar tratá-lo.
No conflito entre o hospital e a família, aparece claramente o polaridade entre moral e razão. A posição dos médicos e da justiça britânica é, sem sombra de dúvida, racional. A razão diz que aquele menino não tem futuro. Suas chances de sobrevida são mínimas e não se deve prolongar inutilmente seu sofrimento e o de seus pais. Esta é a decisão racional a ser tomada.
Os pais de Alfie, porém, veem nele uma vida que não se apagou. Embora combalida, ali está, latente, como “a mecha que ainda fumega” de que falava o profeta Isaías. Por que não lhe dar mais uma chance? Por que, se há equipes médicas dispostas a atendêlo e tratá-lo?
A mesma nação que se enternece e aclama o recém-nascido príncipe tem um sistema jurídico que condena Alfie e o impede de receber mais um recurso de acesso à vida. Por quê? Em que a vida de Alfie importa menos que a do bebê de William e Kate? O que aconteceria se fosse este último que estivesse doente? A razão e a ciência existem no Reino Unido e na Itália. Se há divergências na medicina de um e outro país, por que não dar a Alfie o benefício dos que veem positivamente seu caso e se dispõem a tratá -lo?
Em todo caso, Tom e Kate Evans geraram essa vida. Não pela razão, mas pelo amor. Que a decisão que diz respeito à vida do filho seja deixada a eles. Torço para que possam voar no avião italiano no encalço da esperança que os anima.