Paz

Sustentabilidade, o novo nome da Paz

Hoje em dia a sustentabilidade parece ser o novo nome da Paz. Por um lado, nada pode ser mais devastador para as pessoas e para os ecossistemas do que a guerra, medida em sofrimento, destruição de recursos naturais, contaminação da água, do ar e da terra. Por outro, as conseqüências da insustentabilidad já estão à vista. Na comunidade latino-americana, o Haiti é uma dolorosa demonstração de uma seqüência onde a destruição ambiental já fez sua tarefa: depredação da cobertura vegetal, erosão, desaparecimento dos cursos d' água, pobreza, escassez de alimentos, violência, ingovernabilidade. Em linguagem moderna, o Haiti e seus 8.7 milhões de habitantes estão declarados não viáveis.

O tema da sustentabilidade resultou sendo bem mais complexo que o inicialmente imaginado na Reunião de Cúpula da Terra, celebrada no Rio de Janeiro em 1992. Inicialmente o foco esteve posto no ambiental, e o conceito da "ecoeficiência" se instalou como o remédio para muitos males: fazer mais com menos foi a consigna. Adicionalmente, nessa oportunidade o desafio deixou de pertencer só aos governos e surgiram com força dois novos atores: o mundo empresarial e a sociedade civil.

Em meados dos anos 90 a humanidade constatou que a fórmula embaralhada a partir do Banco Mundial não conseguia superar as inequidades sociais, o que ficou plasmado nas Metas do Milênio, instalando-se a preocupação pelo "socioambiental". A partir de então, do setor privado apareceu uma nova proposta: os "negócios inclusivos", com o propósito de incorporar pessoas de escassos recursos nas correntes produtivas, como uma nova aposta tendente a que os benefícios do progresso chegassem a todos.

Como uma contribuição impensada da globalização, os acordos e tratados de livre comércio adicionaram um novo ingrediente: o voto dos consumidores dos países industrializados, que aspiram promover a sustentabilidade, por meio de suas opções de compra. Assim nasce a traçabilidade, o comércio justo e a impressão ecológica como motivações para elevar os padrões ambientais e sociais nos países em desenvolvimento.

Se bem no início a sustentabilidade se associou só ao ambiental, hoje ninguém duvida de sua dimensão econômica, social, cultural, política e ética. Por isso, a busca da sustentabilidade nos obriga a fazer-nos perguntas mais complexas. Já não se trata só de tentar crescer acima dos US$12.000 per capita para então preocupar-nos pelos recursos naturais, senão de perguntar-nos se para esse momento já teremos "comido o capital natural" que nos permitiu elevar as condições de vida das gerações presentes, mas que compromete severamente as possibilidades dos que estão por nascer. Dado que o crescimento da América Latina se baseia principalmente na exportação de seus recursos naturais, a pergunta é razoável.

Assim mesmo, cabe reflexionar se nesta viagem para a riqueza material não estaremos depredando também nosso espírito. Já que o ser humano é a única espécie capaz de projetar-se no futuro, tem também a responsabilidade de cuidá-lo, o que com freqüência implica estar disposto a sacrificar algo do presente para assegurar um futuro possível. Por isso, apesar de que a sustentabilidade requeira uma geração de empregos sem deteriorar a natureza, também precisa cultivar nossos valores. Se assumimos que se cuida o que se ama e se ama o que se conhece, também requer conhecimento científico e a construção de acordos que permitam harmonizar todas estas variáveis.
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Ximena Abogabir, presidenta da Casa de la Paz. Coluna publicada em www.sustentable.cl