Meio-Ambiente

Registros históricos da Araucária - Entrevista com Hermann Behling

Passando por todos os períodos na escala de tempo geológico, o biólogo com especialização em palinologia e paleoecologia, Hermann Behling, faz um panorama dos registros históricos da araucária. Behling, que também é pesquisador e professor na Universidade de Bremen, da Alemanha, mostrou, nesta entrevista concedida à IHU On-Line, a forte influência do clima sobre as florestas com araucárias e como as mudanças globais afetam esse ecossistema. "O entendimento da dinâmica paleovegetacional e da alteração da composição paleoflorística, dados fornecidos pela palinologia, podem subsidiar ações de preservação e manejo, deste ecossistema", explica.

Behling é doutor em Biologia pela Universitat Göttingen, UG, Alemanha e mestre em Botânica pela mesma universidade. Já produziu mais de 70 artigos e participou de capítulos publicados em livros como: Paleovegetação e Paleoclimas do Quaternário do Brasil, 2005 e A geologia da região de Caxiuanã na Amazônia Oriental, 2002.

IHU On-Line - Qual a origem das florestas com araucárias?

Hermann Behling - A cobertura vegetacional da mata com araucárias, considerada à época do início da colonização européia, foi estimada com base nos dados botânicos, em 200.000 km2. Ocorria de forma abundante nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e de modo esparso em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Vários estudos paleoecológicos foram realizados na floresta com araucárias e adjacências durante as últimas duas décadas. Dentre estes, o realizado em Cambará do Sul, Rio Grande do Sul, registrou a idade de 42.000 anos AP[1] e proporcionou importantes dados sobre a história da mata com araucárias. O registro polínico desta região indicou a presença de extensas áreas de formação campestre e ausência de vegetação arbórea durante o pré-Último Máximo Glacial[2] até o Último Máximo Glacial[3]. O predomínio dos campos sugere a ocorrência de clima frio e seco sendo freqüente a ocorrência de geadas. A temperatura mínima inferior a -100 C e o período de seca sazonal impediram o desenvolvimento da araucária nas terras montanas. Durante o Último Máximo Glacial, a presença de grãos de pólen tipo Eryngium, a ocorrência de lagos rasos e intermitentes apontam, respectivamente, para a vigência de clima sazonal com um longo período de seca. Estas condições climáticas prevaleceram até o início do Holoceno[4]. Estes mesmos resultados foram encontrados para as regiões de Catas Altas e Lago dos Olhos (Minas Gerais), Botucatu e Morro de Itapeva (São Paulo) e Volta Velha (Santa Catarina). Portanto, o registro polínico ao longo do Pleistoceno[5], em terras montanas e alto-montanas, não suporta a presença de Mata de Araucária, mas evidencia a ocorrência de extensas áreas de formações campestres para as regiões Sul e Sudeste do Brasil. Os poucos grãos de pólen arbóreos detectados nos diferentes sedimentos anteriormente enumerados, possivelmente transportados pelo vento, seriam oriundos de florestas estabelecidas nos vales profundos e protegidos dos planaltos. Em terras baixas do Rio Grande do Sul, estudos palinológicos[6] têm evidenciado o mesmo panorama vegetacional com a vegetação herbácea dominando a paisagem.

Registros históricos

Durante o Holoceno Médio e Superior (em torno de 4.320 - 1.000 anos AP), a mata com araucárias sofreu ampliação, formando uma rede de florestas de galeria ao longo dos rios, enquanto regionalmente a vegetação herbácea predomina. Os registros polínicos da floresta com araucárias incluem, além da própria Araucaria, sucessivamente, grãos de pólen de Myrsine, Mimosa scabrella, Myrtaceae, Podocarpus e Ilex e esporos de Dicksonia sellowiana. No topo do Holoceno Superior (1.000 - 430 anos AP), houve um acentuado aumento do registro polínico dos táxons[7] da floresta com araucárias, sobretudo, Araucaria angustifolia e Mimosa scabrella as quais substituem a vegetação herbácea.

Influência do Clima

O registro polínico de táxons[8] constituintes da floresta com Araucaria exibe um pequeno acréscimo, indicando que houve migração destas matas, provavelmente, seguindo o curso dos rios. Elementos polínicos relativos a grãos de pólen da Mata Atlântica também sofreram um aumento, denotando ampliação destas florestas através das escarpas litorâneas da Serra Geral. A associação dos conjuntos polínicos registrados para essa idade aponta a ocorrência de clima seco. Por sua vez, a troca na composição paleoflorística da vegetação campestre, do Pleistoceno para o Holoceno, sugere a vigência de clima quente. O registro polínico não detectou expansão da mata com araucária, demonstrando que as condições climáticas, quente e seca, não eram favoráveis ao seu desenvolvimento. A mudança na composição paleoflorística iniciada em 4.320 anos AP e acentuada após 1.000 anos AP, reflete variações para um clima mais úmido, com alta pluviosidade e pequeno ou inexistente período de seca.

A planície costeira do Rio Grande do Sul tem sido palco de vários estudos palinológicos os quais consensualmente demonstraram a ausência de mata com araucárias ao longo da zona costeira. Esses estudos têm evidenciado o predomínio da vegetação herbácea, sendo o estabelecimento e a expansão das matas de restinga datadas para o Holoceno, quando houve melhoria das condições climáticas.

IHU On-Line - O que podemos concluir desses dados precisos?

Hermann Behling - Os dados palinológicos mostraram que a floresta com araucárias nas regiões Sul e Sudeste do Brasil estabeleceu-se muito recentemente e sob condições climáticas específicas. A expansão deste importante ecossistema é resultado de trocas climáticas e de migrações de floras refugiadas nos vales das serras pelos cursos dos rios. Análises polínicas modernas demonstram o alto grau de perturbação a que estas florestas estão expostas devido à pecuária, exploração de madeira e atualmente pela substituição desmedida por essências florestais exóticas como o Pinus[9]. O estabelecimento da exata área de ocorrência da floresta com araucárias, o entendimento da dinâmica paleovegetacional e da alteração da composição paleoflorística, dados fornecidos pela palinologia, podem subsidiar ações de preservação e manejo, deste ecossistema. A compreensão da dinâmica paleovegetacional pode servir de base para a construção de modelos regionais de implantação e aceleração do processo de sucessão e como banco de dados na busca de essências nativas úteis a projetos de reflorestamento.

IHU On-Line - Como as mudanças globais modificam a estrutura das florestas com araucárias?

Hermann Behling - A intensa exploração deste ecossistema reduziu sua cobertura florestal para cerca de 3% de sua área, ou seja aproximadamente 6.000 km2, considerando florestas exploradas e matas em regeneração. Para preservar a floresta com Araucaria e seus remanescentes é preciso compreender os processos ecológicos que regulam seu funcionamento. O conhecimento acerca da distribuição e da dinâmica da paleovegetação são elementos importantes para a compreensão dos ecossistemas modernos, além de fornecerem uma visão sinótica dos fenômenos ecológicos que regem os mesmos. Entre 30-15 anos AP, houve uma expressiva diminuição do registro de grãos de pólen de Araucaria angustifolia como conseqüência da intensa exploração de sua madeira. A extração desmedida de caules de Dicksonia sellowiana[10], utilizado como substrato para cultivo de plantas ornamentais, ocasionou diminuição de seu registro no espectro polínico nas últimas décadas. A introdução do gado e a derrubada seletiva da Araucaria angustifolia propiciaram condições ambientais favoráveis ao desenvolvimento de uma mata secundária, caracterizada pela presença freqüente de Mimosa scabrella[11], Myrtaceae, Lamanonia speciosa[12] e Ilex.

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[1] O termo ap, em arqueologia, significa "Antes do Presente". Assim, se um determinado fato ocorreu há 10.000 a.C., ele também pode ser notado como 12.000 ap. Sobre estudos paleontológicos ver IHU On-Line edição 126 do dia 6 de dezembro de 2004.(Nota da IHU On-Line)

[2] Pré-último máximo glacial (cerca de 31.000 - 27.000 anos 14C AP). (Nota da IHU On-Line)

[3] Último máximo glacial (cerca de 27.000 - 13.000? anos 14C AP). (Nota da IHU On-Line)

[4] Na escala de tempo geológico, o Holoceno ou Holocénico é a época do período Neogeno da era Cenozóica do éon Fanerozóico que se iniciou há cerca de 11.500 anos e se estende até o presente. A época Pleistocena sucede a época Pliocena de seu período. Diferente das outras épocas de sua era, não se divide em idades. (Nota da IHU On-Line)

[5] Na escala de tempo geológico, o Pleistoceno ou Plistocénico é a época do período Neogeno da era Cenozóica do éon Fanerozóico que está compreendida entre 1 milhão e 806 mil e 11 mil e 500 anos atrás, aproximadamente. A época Pleistocena sucede a época Pliocena e precede a época Holocena, ambas de seu período. Divide-se nas idades Pleistocena Inferior, Pleistocena Média e Pleistocena Superior, da mais antiga para a mais recente. (Nota da IHU On-Line)

[6] Palinológico é o estudo de polens. (Nota da IHU On-Line)

[7] Táxon é uma unidade taxonômica, essencialmente associada a um sistema de classificação. Táxons (ou taxa) podem estar em qualquer nível de um sistema de classificação: um reino é um táxon, assim como um gênero é um táxon, assim como uma espécie também é um táxon ou qualquer outra unidade de um sistema de classificação dos seres vivos. (Nota da IHU On-Line)

[8] Táxon é uma unidade taxonômica, essencialmente associada a um sistema de classificação. Táxons (ou taxa) podem estar em qualquer nível de um sistema de classificação: um reino é um táxon, assim como um gênero é um táxon, assim como uma espécie também é um táxon ou qualquer outra unidade de um sistema de classificação dos seres vivos. (Nota da IHU On-Line)

[9] As espécies do gênero Pinus são amplamente utilizadas em reflorestamentos no Brasil, devido, principalmente, ao seu rápido crescimento. A madeira do pinus é usada em construções leves ou pesadas, na produção de laminados, compensados, chapas de fibras e de partículas, na produção de celulose e papel, entre outros. (Nota da IHU On-Line)

[10] Xaxim. (Nota da IHU On-Line)

[11] A Mimosa scabrella Bentham (bracatinga) é uma espécie arbórea nativa da Mata Atlântica. (Nota da IHU On-Line)

[12] Cedro-do-campo (Nota da IHU On-Line).

(Fonte: http://www.unisinos.br/ihu)