Sobre a Delação de Palocci

Publicado em 12/9/2017 por: Frei Betto

Sobre a Delação de Palocci

Entrevista com Frei Betto, El País

EL PAÍS - Do que o senhor conhece de Palocci e do que o senhor conhece de Lula, como diferenciar a credibilidade que cada um passa no momento atual nesses depoimentos e versões? Quem parece mais preciso e verdadeiro em suas versões?

Frei Betto: Considero precipitado qualquer julgamento e fico à espera das investigações da Justiça. O que Palocci declarou, motivado pela ânsia de minorar sua reclusão carcerária, é muito grave e compromete a credibilidade de Lula. Contudo, há que ter cautela. O ex-senador petista Delcídio Amaral também fez graves acusações a Lula e, depois, a Justiça apurou que ele mentiu, o que resultou na recente absolvição de Lula quanto aos supostos crimes imputados a ele.

De qualquer modo, Palocci maculou profundamente a imagem do fundador do PT e o partido deveria, no mínimo, promover o quanto antes a sua expulsão sumária.

EP - Como avalia a confissão do ex-ministro Antonio Palocci, que assumiu crimes que entende que cometeu e também contextualizou crimes que entendeu que Lula cometeu ao tratar de uma nova sede para o instituto e de um apartamento contíguo ao seu apartamento, financiados pela Odebrecht?

FB: O fato de uma empresa comprar um terreno e doá-lo a Lula ou ao PT não implica um crime, bem como financiar um apartamento. A gravidade é se o dinheiro dessas transações foi obtido mediante propinas de serviços prestados ao governo federal. Cabe à Justiça apurar se Palocci fala a verdade quando diz que sim, que o dinheiro resultou de licitações ilegais e favorecimentos escusos.

EP - Mesmo sem delação premiada, pode ser considerado que Palocci dedurou Lula, de olho em obter uma punição menor na condução (redução de até 2/3 da pena) ou de olho em conseguir enfim uma delação. Esse depoimento, então, traz credibilidade?

FB: Palocci se encontra em situação de profundo sofrimento como encarcerado. Estive preso quatro anos e sei que não é fácil para um pessoa que, como ele, gozava do respeito e da amizade de banqueiros, desfrutava uma vida de luxo e mordomias, suportar a reclusão carcerária. Portanto, ele está disposto a tudo para ver a sua pena reduzida e obter prisão domiciliar. Isso compromete a credibilidade do que declara. Vi muitos companheiros de prisão que, sob tortura física ou psicológica, declararem o que os nossos algozes queriam ouvir. Portanto, repito, é preciso aguardar as investigações da Justiça e as provas que Palocci deverá apresentar para fundamentar o que disse.

EP - Com o partido acusado no STF na terça-feira, como PMDB e PP, de se mobilizar para obter financiamento ilícito (para fins pessoais ou partidários) e se manter no poder, como fica agora a história recente do partido?

FB: O PT nega qualquer ato ilícito. O ônus da prova cabe a quem acusa. Porém, é no mínimo estranho que o PT tenha abandonado a bandeira da ética na política e não punido, até agora, seus militantes comprovadamente envolvidos em falcatruas. O PT deveria fazer autocrítica. Sua atual presidente declarou que o partido não fará autocrítica "para não dar munição à direita". Ora, quem não deve não teme. E não adianta tapar o sol com a peneira. É preciso calçar as sandálias da humildade e ousar separar o joio do trigo, caso contrário fica comprovada a cumplicidade do partido com militantes que comprovadamente se envolveram em corrupção, como Palocci, que se autodenuncia.

Daniel Haidar, El País