Não sei se vocês gostam de futebol como eu...

Publicado em 9/10/2018 por: Luiz Eduardo Soares

Amig@s, não sei se vocês gostam de futebol como eu e, por isso, não sei se essa comparação fará sentido para vocês, mas eu me sinto como nos grandes clássicos no velho Maracanã. Lembro perfeitamente da sensação. Adolescente, sol a pino, as pernas exaustas pela manhã inteira jogando no aterro, mas ainda cheio de energia, o coração aos pinotes, na expectativa da final do campeonato, espremido pela massa de torcedores, os pés já sem tocar o chão, buscando manter a cabeça livre para respirar, os ombros forçando o rumo até chegar à passagem estreita entre as barras de ferro, depois a roleta e, finalmente, a alegria exuberante de estar do outro lado, de poder subir correndo a rampa até a arquibancada e contemplar o campo verde e vazio, enquanto o estádio já começa a rosnar, e tudo ali é promessa, possibilidade e abertura. Mesmo quando o adversário é mais forte. Hoje, minha sensação é exatamente essa: atravessei a multidão, não fui esmagado, estou do outro lado, o campo está vazio, pura promessa, possibilidade, abertura. E o estádio rosna feito um animal que desperta.

Pois é, passamos o funil do primeiro turno e não fomos esmagados. Chegamos ao segundo turno. Eis o que eu queria lhes dizer: nós chegamos ao segundo turno, mas Bolsonaro já havia chegado lá dez dias antes. Desde as maravilhosas manifestações #EleNão, lideradas pelas mulheres, nós continuamos regidos pela lógica do primeiro turno, em nossa pluralidade, nossos 50 tons de democracia competindo entre si, enquanto a ultra-direita tornou-se um polo gravitacional que atraiu todos os seus votos potenciais, uma vez que a eleição se tornara plebiscitária. Por isso, me parece ilusório avaliar o resultado como se Haddad e Bolsonaro tivessem sido até agora atores iguais, atuando na mesma dimensão do processo político. Estavam em dimensões diferentes. Além disso, Bolsonaro estava em campanha há dois anos, Haddad, entrou na campanha há um mês. Agora, tudo será diferente, porque , também nós, democratas de todos os tons, entramos em modo plebiscitário. Agora, também pra nós, a equação é do tipo soma zero: cada voto agregado de um lado é voto perdido do outro. Haddad será um polo gravitacional, que agregará tanto por identificação quanto por repulsa ao adversário. Daqui pra frente, só há voto útil.

O resultado do primeiro turno abriu um clarão: a abstenção mais brancos e nulos ultrapassaram 20%. Além disso, dos votos válidos, 54% não foram para Bolsonaro e sua rejeição continua maior. Lembremo-nos de que Bolsonaro não participou dos debates, nem se expôs ao contraditório. Terá de fazê-lo. Outro ponto da maior relevância é o seguinte: a economia ainda não entrou em campo. O que a agenda ultra-neo-liberal de Paulo Guedes oferece à grande massa da população brasileira? Essa questão é absolutamente decisiva.

Falta focalizar um aspecto especialmente complicado: há um adversário, ou melhor, um inimigo mais temível do que o candidato do PSL: o anti-petismo. Se todo segundo turno é sempre uma corrida ao centro (vence quem conseguir ampliar mais, agregar mais), nessas eleições, essa regra é ainda mais importante. Ocorre que há aí uma armadilha: acredito que seja um erro supor que, afastando-se de Lula, Haddad se credenciará a conquistar mais apoios ao centro e se fortalecerá. Desde a redemocratização, salvo engano, quem escondeu suas origens e seus laços fundamentais acabou derrotado. A votação de Haddad foi viabilizada sobretudo pela afirmação de seus vínculos com Lula. Por outro lado, concordo com todos que têm dito que Haddad precisa ser Haddad, cada vez mais ele mesmo, e não um avatar de Lula. A pergunta, então, passa a ser: como compatibilizar a construção da autonomia com o reconhecimento dos laços? A resposta, a meu ver, é: transparência, isto é, Haddad deveria afirmar, com toda transparência, que ser leal, profunda e sinceramente leal, não significa negação das individualidades. Além disso, eu sugeriria que Haddad procurasse demonstrar que o grande ensinamento de Lula é a generosidade na política, é a abertura, é essa disposição permanente ao diálogo, é seu compromisso inquebrantável com a democracia. Que maior prova haveria do que a recusa a sequer considerar a hipótese de mudar as regras do jogo para candidatar-se a um terceiro mandato, em 2010, quando sua popularidade ultrapassava os 85%? Sim, Haddad, como eu e tanta gente, pode continuar acreditando que Lula está sendo injustiçado, terrivelmente injustiçado, e mesmo assim, dialogar com qualquer cidadão e cidadã que deseje o aperfeiçoamento de nossa democracia e a redução das desigualdades, independentemente de sua opinião sobre Lula e o PT. Afinal, não há, no histórico de Lula e do PT, qualquer transgressão ao compromisso com a democracia. E o que está em jogo, nesse segundo turno, é o confronto entre democracia e ditadura, civilização e barbárie. Todas e todos que prezam a democracia e que compreendem que o grande drama brasileiro são as desigualdades tenderão a se identificar com a campanha de Haddad. Por tudo isso, não preciso ser Poliana para dizer: continuo acreditando na vitória.

Luiz Eduardo Soares