Afrodescendentes

Nasce um Ancestral: Oliveira Silveira[1]

por Vilma Piedade (*) e Horácio Lopes de Moraes (**)

1 de janeiro (Dia Mundial da Paz); 20 de novembro (Dia Nacional da Consciência Negra). Datas emblemáticas que vão, para sempre, marcar a trajetória de Oliveira Silveira: brasileiro, negro, ativista do movimento negro, professor, tradutor, pesquisador e poeta. Oliveira Ferreira Silveira, gaúcho, nasceu em Rosário do Sul, Rio Grande do Sul, no ano de 1941, zona rural de Porto Alegre. As quadrinhas populares cantadas nos bailes de Rosário do Sul iriam influenciar sua literatura, seu canto de "Lanceiro Negro".

Na noite de 1 de janeiro, no Hospital Ernesto Dornelles, foi atestado o óbito de Oliveira Silveira, que aos 67 anos, vitimado por um câncer, lutou até o fim. Oliveira Silveira, que tanto lutou pela Paz para o nosso Povo Negro, combatendo as desigualdades provocadas pelo racismo, pois "... o racismo não desaparece. Pode até se aquietar, mas está sempre vivo e atuante..." partiu definitivamente no Dia Mundial da Paz. E Porto Alegre, espaço da militância mais direta de Oliveira Silveira, chorou sua partida naquela noite chuvosa, exatamente como fizeram os militantes em todo o país.

Formado em Letras, Português-Francês, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, Oliveira Silveira traduziu Aimé Césaire e Langston Hughes. Autor de vários livros de poemas, crônicas e artigos. Seus poemas também já foram traduzidos, entre outras línguas, para o inglês e o alemão[2]. Teve grande expressão e atuação política no movimento negro e no combate ao racismo, através da militância e da produção literária. Integrou o corpo editorial da revista "Tição" (publicação do Movimento Negro gaúcho, no final dos anos 1970 e foi Fundador do grupo "Semba - Associação Negra de Cultura". No período de 2004 a 2008, foi Conselheiro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) [da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR)]. Ultimamente, era colaborador da SEPPIR prestando consultoria acerca da preservação dos clubes negros como patrimônio material e imaterial afro-brasileiro.[3]

A marca do 20 de novembro

Foi em 1971, na antiga Rua da Praia, atual Ruas dos Andradas, no centro da capital gaúcha, que Oliveira Silveira, integrante e um dos fundadores de um grupo de cidadãos negros - Grupo Palmares, foi porta-voz da data política de 20 de novembro para o Brasil, que adotava Zumbi dos Palmares como herói nacional. Era a desconstrução do mito da liberdade concedida, a descontrução do "13 de maio" que passou a ser conhecido como a data da "farsa da abolição". Era a hora e a vez do nosso verdadeiro Herói: Zumbi dos Palmares. Era a hora do povo negro tomar seu lugar real na história do País, pela combatividade negra durante todo o período de escravização e pela denúncia da ação do racismo, do preconceito e da discriminação racial no Brasil. Foi um período marcante para a luta do povo negro brasileiro. 1971 - Ano Internacional para Ações de Combate ao Racismo e à Discriminação. Sete anos depois, em 1978, o 20 de novembro foi elevado a Dia Nacional da Consciência Negra[4], a partir da fundação do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial - MNUCDR - que, mais tarde passou a ser conhecido simplesmente como MNU.

Até, um dia, quando nos encontrarmos novamente com Oliveira Silveira, continuamos em missão. Precisamos que o 20 de novembro seja outorgado, por essa Nação, ainda em débito com a População Negra, em FERIADO NACIONAL. É o clamor do Povo Negro! Só assim estaremos rasgando definitivamente a máscara do "13 de maio".

O engodo político mascarado e a liberdade negada do 13 de maio foi entoado por Oliveira Silveira, em 1970 (anos de chumbo da ditadura militar) no poema "Banzo - Saudade Negra"[5]:

Treze de maio traição,

liberdade sem asas

e fome sem pão

Liberdade de asas quebradas

como

........ este verso.

Liberdade asa sem corpo:

sufoca no ar,

se afoga no mar.

Treze de maio - já dia 14

o Y da encruzilhada:

seguir

banzar

voltar?

Treze de maio - já dia 14

a resposta gritante:

pedir

servir

calar.

Os brancos não fizeram mais

que meia obrigação

O que fomos de adubo

o que fomos de sola

o que fomos de burros cargueiros

o que fomos de resto

o que fomos de pasto

senzala porão e chiqueiro

nem com pergaminho

nem pena de ninho

nem cofre de couro

nem com lei de ouro.

.............................................

que o que temos nós lutamos

para sobreviver

e também somos esta pátria

em nós ela está plantada

..........................................

e então vamos rasgar

a máscara do treze

para arrancar a dívida real

com nossas próprias mãos.

É na mesma linha poética reflexiva e de embate que Horácio Lopes de Moraes nos oferece, a seguir, um pouco da intimidade que desfrutou ao lado de Oliveira Silveira.

Nasce um ancestral

Tipo raro dos pampas, referência que seguramente figurará entre as mais importantes para nós negros riograndenses, mesmo sem evocar toda aquela querela do gaúcho macho bagual.

Não foi preciso isso. Suas palavras mostraram a força que pode ter um negro apenas articulando pensamentos e nos deram a dimensão de quanto as nossas ações podem ser importantes pesquisando apenas uma data, dia 20 de novembro. Além disso, todos que o conheceram sabem que seus gestos tinham ingredientes fartos daquilo que alicerça qualquer relação de respeito e confiança [e que também muitos de nós temos a dificuldade em admitir que não possuímos]: humildade.

Por si só, as ações do poeta são ensinamentos valiosos que, para mim, transcenderam sua obra. Durante nossos últimos encontros, isso ficou evidente. Na "Liga da Canela Preta", dos tempos modernos, em novembro último, topo com o mestre me solicitando uma conversa e, ao vê-lo, vem à baila o que minha mãe alertava: "Ele não está bem, precisamos fazer algo.". Em outro sentido, me recebe com seu sorriso peculiar, seu apertar de mão e seu aceno com a cabeça em tom positivo, talvez mais peculiares ainda, e me fala: "Olha, sei que estás atrasado para o jogo e acho que não vou ficar até que acabe. Gostaria de te dizer que separei uma lista com nomes africanos, como sugestão para o gurizão que está chegando..."

Já com sérias dificuldades físicas de locomoção, o cabelo todo branco, alvíssimo, e sem o seu porte que, há poucos meses, erguia uma compostura saudável de um homem "experiente", Oliveira precisava daquele encontro amigo comigo, assim como com todas as outras pessoas com as quais julgava necessário fazê-lo antes de...

Sim, com certeza ele sabia que poderia perder a luta no próximo "round". O adversário, forte, não estava recuando e, muito pelo contrário, o fez reagir a contragosto dos seus pensamentos militantes para diminuir seu passo e cumprir o papel da despedida.

Mais projetos e aspirações o poeta ainda guardava: o nosso próprio nazi-hino sulino ele ainda gostaria de ver atingido por sua lança, de lanceiro negro, e ver virar hino, de verdade.

Ocorre que sair da travessia, na esmagadora maioria das vezes, não é como entrar nela a despeito da única certeza que temos em vida. De um lado se tem nove meses para prover condições tanto a nós quanto ao descendente; de outro, pode-se não ter sequer um instante para o último olhar, olhar que embaraça e faz confundir os sentidos de quem fica.

De fato, ainda pude ter a chance de me encontrar novamente com o mestre, já no hospital, para que me sugerisse uma dica fundamental no nome que eu e minha mulher escolhemos para o nosso filho, Aluiatã, que nascerá em fevereiro. O nome escolhido, em verdade pela mãe, terminava indígena sem a mudança que, segundo Oliveira, poderia transformá-lo em um anagrama yorubá, para assim dar sentido a Aluiatan (A_lui_atan).

Nesta ocasião, com muita dificuldade de manter-se acordado, fazia bastante esforço para não perder a linha de raciocínio enquanto dava explicações em torno do nome. "Apagava" por, até, minutos, mas voltava justamente do ponto onde havia parado, como que remoendo pensamentos tão profundos quanto o arcabouço de vida que acumulou durante todos esses anos.

O professor... sempre a ensinar. E não é que nesse dia vi até novela! Como ele mesmo dizia, o prazer infame que havia adquirido durante esses dias de malogro, passava "no doze"[6], às oito da noite. Horário após o qual, no dia da visita, 30 de dezembro, eu e minha mãe decidimos nos despedir.

Dia 1º de janeiro, à noite. Minha mãe atende ao telefone e vem em minha direção com a notícia no semblante: "não deu!". Pois aí é que pensei e, creio, Dona Vera concordará comigo: "deu sim, mãe!". Nosso poeta soube, como um exímio atleta, passar o bastão. Homem com requintes da educação do interior, sim, ele fez questão de se despedir. A exemplo dos costumes que aprendeu, exerceu uma coerência que talvez explique seu próprio caráter, e que me impressiona muito. É algo que levarei adiante e que meu filho já trará engendrado no nome. É algo que a sociedade riograndense clama sem nem sequer se dar conta. É algo que o Brasil ainda verá transformado em feriado, em novembro. É algo de que, talvez, só o povo negro poderá dispor ao mundo com sua ancestralidade exclusivamente matriarcal. Uma coerência que também se percebe no ciclo que persevera a "passagem" entre nós, dando início a uma vida, ao passo que aconchega outra que, neste caso, faz jus a um grande nascimento.

Dia 1º de janeiro de 2009: nasce nosso mais novo ancestral, o poeta digno de um cunho de lanceiro, negro, Oliveira Silveira.

Oliveira Silveira é mais uma das conexões históricas necessárias, porque ancestral, de um povo que veio, à força, nos tumbeiros. É conexão que continua em nós para a liberdade política, econômica e social da População Negra Brasileira. Valeu Oliveira Silveira! Valeu Zumbi! Valeu Lélia Gonzalez! Valeu IPDH! Valeu Amai-vos!

(*) Vilma Piedade - Brasileira, negra, feminista, militante do Movimento de Mulheres Negras. Trabalha na perspectiva de combate ao racismo, direitos humanos, redução das desigualdades de gênero e saúde da população negra. Formação e Pós-Graduação em Letras pela UFRJ. Coordenadora de Gênero e Raça de Memória Lélia Gonzalez. Fundadora e Coordenadora do Coletivo de Mulheres Negras do Rio de Janeiro. Coordenadora de comunicação da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde. Relatora da Conferência Estadual da Promoção da Igualdade Racial (2005) e do Documento de Revisão da Conferência de Durban (Brasília-2008).

(**) Horácio Lopes de Moraes - Estudante de Arquitetura (UFRGS). Iniciou estudo, defendido no Salão de Iniciação Científica dessa instituição, sobre o negro e suas relações espaciais na cidade de Porto Alegre. É aluno de graduação do curso tecnológico de Gestão Pública-Facinter e bancário da CEF. Menção Honrosa no concurso para estudantes de arquitetura, promovido pela FENEA (Federação Nacional dos Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil), em 2007, cujo tema era "habitação de interesse social', ocasião em que fora trabalhado um conjunto de melhorias para o quilombo urbano da Família Silva.

-------------------------------------------------------------------------

[1] Título da reflexão original de Horácio Lopes de Moraes que compõe esse texto.

[2] Publicou, entre outros, "Germinou", Porto Alegre (1968); "Banzo, Saudade Negra", Porto Alegre (1970); "Pêlo Escuro", Porto Alegre (1977); "Roteiro dos Tantãs", Porto Alegre (1981); "Anotações à Margem", Porto Alegre (1994). Todos livros de poesia. Seus poemas também já foram traduzidos, entre outras línguas, para o inglês e o alemão, e essas traduções apareceram respectivamente na revista Callaloo, The Johns Hopkins University Press (1995), e na antologia Schwarze Poesie, Edition Diá, 1988. Essas referências podem ser buscadas em http://poesia-pau.blogspot.com/2008/05/oliveira-aos-emurados-do-lugar.html.

[3] Em 8 de janeiro de 2007, Sátira Machado havia postado no Blog "OLIVEIRA SILVEIRA por Oliveira Ferreira da Silveira". http://oliveirasilveira.blogspot.com/2007/01/oliveira-silveira-por-oliveira.html

[4] Num certo dia de novembro, tendo encontrado no quadro de giz em uma sala do IPCN - Instituto de Pesquisas das Culturas Negras - a lembrança deixada aos sócios sobre o dia "20 de novembro - Dia de Zumbi", Paulo Roberto dos Santos (conhecido no Movimento Negro em todo o País), escreveu ao lado: "Dia Nacional da Consciência Negra". O nome pegou por toda parte e a continuação do significado desse dia é conhecida de todos/as.

[5] Em http://oliveirasilveira.blogspot.com/2006/12/oliveira-silveira-no-portal-afro.html

[6] Referência ao canal 12 da TV, em Porto Alegre.