Ainda vai dar trabalho

Publicado em 28/2/2011 por: André Urani

Carioca é meio bipolar. Alterna períodos de euforia desenfreada com outros de depressão profunda.

O Corcovado é eleito uma das sete maravilhas do mundo? Vamos organizar os jogos Olímpicos? Descobrimos um jeito de extrair petróleo do pré-sal? Os governos ajustaram suas contas e recuperaram capacidade de investimento? Libertamos algumas favelas do jugo do poder paralelo? A taxa de homicídios caiu? A Lei Seca pegou?

Conseguimos atrair alguns investimentos polpudos? OBA! Temos elementos de sobra pra acreditar que temos um futuro brilhante pela frente!

Mas basta que se descubra um novo esquema de corrupção na polícia, que os banheiros químicos instalados em torno dos blocos não dão vazão à multidão de cervejeiros mijões, que apareçam denúncias contra os esquemas mafiosos dos taxistas nos aeroportos e hotéis da cidade ou que alguns bairros da zona sul sejam atingidos por um apagão para que bata um desânimo generalizado, beirando o desalento: esta cidade não tem jeito mesmo, melhor deixar pra lá!

Chegou a hora de amadurecer e de mudar de registro. Vivemos um momento positivo, como há muito não vivíamos e temos muitas oportunidades pela frente. Mas o nosso futuro não está garantido; ainda vamos ter que trabalhar um bocado, tanto para aproveitar estas oportunidades quanto para enfrentar nossos principais problemas.

Integrar econômica e socialmente nossas favelas ao tecido formal urbano passa pela pacificação, mas vai muito além: requer uma ação orquestrada de diversas instâncias de governo, do setor privado e da sociedade civil, durante anos e anos. Reformar a polícia na profundidade que é necessária não vai acontecer de uma hora pra outra. Melhorar a qualidade lamentável dos nossos serviços só será possível através de uma política de longo prazo, que começa (mas não termina) pela educação - que anda mal das pernas. Assim como para explorar direito as vantagens competitivas que potencialmente temos em setores que possuem a nossa cara, como a economia criativa.

São todos processos longos, e os caminhos não são em linha reta. Precisamos de estratégias de futuro mais claras e compartilhadas e não podemos desanimar a cada revés.