O legado de Barcelona

Publicado em 15/8/2011 por: André Urani

Se, nos últimos anos, as principais cidades do mundo têm disputado a tapas o direito de sediar os Jogos Olímpicos é porque Barcelona mostrou, em 1992, que esta é uma excelente oportunidade para reinventar uma cidade.

As grandes cidades, sobretudo no mundo ocidental, têm tido que se reinventar porque perderam, no final do século XX, aquilo que fizeram delas o que são hoje: na grande maioria dos casos, a indústria (no nosso, foi bem mais do que isto...). A indústria foi pra China, pro Vietnam, pro interior... escafedeu-se! E deixou pra trás um rastro de destruição: subúrbios economicamente desertificados, desemprego, desesperança, ressentimento.

Barcelona era a capital industrial da Espanha no século passado. Por várias razões, decaiu. Quando veio a democracia, no limiar dos anos 70 e 80, não passava de uma metrópole desindustrializada com um porto decadente, desemprego alto, gangues, elevados indicadores de violência etc. Hoje, uma geração depois, é (entre outras coisas) o pulmão logístico do Mediterrâneo, uma das capitais culturais da Europa e um dos principais pólos turísticos do mundo.

Na raiz desta transformação não estão os recordes olímpicos de velocistas jamaicanos e halterofilistas búlgaras durante as competições, nem as instalações esportivas construídas para os Jogos, nem muito menos as efêmeras duas semanas de exposição na mídia mundial garantidas pelas competições.

O que explica a reviravolta foi a coragem da cidade assumir para si a responsabilidade de construir seu próprio futuro. A começar pelo Plano Estratégico (da cidade, não da prefeitura...), lançado no início dos anos 80, abarcando as principais forças vivas da sociedade local, que sobrevive e se renova até hoje (se estendendo, agora, para toda a região metropolitana). A ideia de organizar os Jogos nasceu dali, e o êxito desta aposta foi a primeira prova de que era possível construir estratégias de longo prazo no âmbito local.

Dalí nasceram outras: a reinvenção do subúrbio (lançada em 1995, com o ambicioso plano 22@, que pretende transformar 200 hectares de deserto industrial num espaço estratégico de concentração de atividades intensivas em conhecimento), o re-ordenamento logístico, os investimentos em economia criativa etc.

Que nos sirva mesmo de inspiração!