Soberania, paz e jabuticabas

Publicado em 20/9/2011 por: André Urani Cunhar e emitir moeda, assim como lançar e cobrar impostos e taxas são faculdades essenciais de um poder soberano há milênios. Tão mais legítimas quanto mais democrático for este poder.

Bem mais recentemente, na segunda metade do século passado, descobriu-se que renunciar a uma parte desta soberania para a construção de uma moeda comum poderia ser um elemento crucial na consolidação do processo de paz no velho continente europeu - que se digladiou em guerras fratricidas ao longo de muitos e muitos séculos. Hoje, como sabemos, o Euro está fragilizado - muito mais pelo afã com que os euroburocratas foram incorporando novos membros do que por falhas em seu desenho original. Se for desmanchar, e cada país voltar a adotar sua velha moeda, periga da paz na Europa ir junto (embora ninguém tenha a coragem, ainda, de dizer isto com todas as letras).

Estes rudimentos de economia política, que não podem ser rotulados de neoliberais nem de desenvolvimentistas, parecem totalmente ausentes da cabeça de alguns responsáveis por políticas públicas no Rio de Janeiro.
No momento histórico em que as três instâncias de governo finalmente se unem, com o apoio do setor privado e da sociedade civil e um amplo respaldo da opinião pública, para promover o que, não à toa, chamamos de "pacificação" - e que passa pelo restabelecimento do estado democrático de direito em territórios antes dominados pelo poder paralelo - eis que surge alguém com a brilhante idéia de criar uma moeda específica para estas comunidades.

Parece piada, mas não é: na Cidade de Deus, uma moeda destas começou a circular na semana passada - e já estão fazendo planos para criar outras, para o Alemão e para oito outras comunidades cariocas até 2014. Pior ainda parece a justificativa: evitar que a renda local escape da comunidade - quando o sentido todo do que está em jogo deveria ser o de promover a integração da comunidade, inclusive econômica, com o seu entorno e com a cidade como um todo.

O que os moradores das comunidades pacificadas precisam é de Reais, moeda que conquistamos a ferro e fogo (e que temos que defender a todo custo, nestes tempos em que a inflação volta a dar sinais vitais preocupantes). Para tanto, mais do que de idéias maluquinhas, se fazem necessárias estratégias sérias de desenvolvimento local.