O Sacramento da Caneca, Uma caneca diferente

Publicado em 13/11/2018 por: Eduardo Machado

Na minha casa, há uma caneca de alumínio. Daquele antigo, bom e brilhante. O cabo é velho, o que lhe confere um ar de antiguidade. Nela beberam os 11 filhos, de pequenos a grandes. Ela acompanhou a família nas muitas mudanças. Da roça para a vila, da vila para a cidade, da cidade para a metrópole. Houve nascimentos, houve mortes. Ela participou de tudo. Esteve sempre junto. É a continuidade do mistério da vida na diferença de situações vitais e mortais. Ela permanece. Sempre brilhante e antiga. Creio que quando chegou à nossa casa já era velha. Dessa velhice que é mocidade porque gera e dá vida. Peça central da cozinha.

Sempre que se bebe nela não se bebe água, mas o frescor, a doçura, a familiaridade, a história familiar, a recordação da criança sedenta que se sacia da sede. Pode ser qualquer água. Nesta caneca ela é sempre fresca e boa. Na casa, todos que tem sede bebem desta caneca. Como num rito, todos exclamam: ‘Como é bom beber nesta caneca! Como a água aqui é boa!’

No entanto, trata-se da água que vem do rio sujo que corta a cidade. Maltratada, segundo os jornais, portadora de riscos e doenças. Para prevenir enchem-na de cloro. Mas por causa da caneca a água se torna boa, saudável, fresca e doce...

Tantas fontes, tantas águas, uma única sede.

O filho regressa. Percorreu o mundo. Estudou. Chega. Beija a mãe. Abraça os irmãos. Matam-se saudades sofridas. As palavras são poucas. Os olhares, longos e minuciosos. É preciso antes beber o outro com os olhos para depois amá-lo. Os olhos que bebem trazem as palavras do coração. Só depois do olhar é que se pode permitir à boca falar de superficialidades desimportantes: ‘Como você engordou. Mas já está um adulto. Mas ficou ainda mais bonito!’ O olhar não perde tempo com nada disso. Ele fala o essencial do amor quando o filho se dirige à mãe: ‘Mãe, estou com sede, quero beber da velha caneca’...

E o filho bebeu de tantas águas. L’acqua de San Pellegrino. As águas da Alemanha, da Inglaterra, da França, a boa água da Grécia. Água das fontes cristalinas do Alpes, do Tirol, das fontes romanas. A água de São Francisco. Água de Ouro Fino, de Teresópolis, de Petrópolis. Tantas águas, mas nenhuma é como essa. Ele bebe da caneca. Não para matar a sede do corpo. Essa, as outras águas matam. Mas a sede do ambiente familiar. Sede dos carinhos paternos, a sede fraternal, das raízes donde vem a seiva da vida. Esta sede, só a caneca pode matar.

Bebe sofregamente. Terminou com um suspiro longo, como quem mergulhou profundamente e veio à tona. Depois bebe outra caneca, lentamente, para saborear o mistério que ela contém e significa.

Porque será que a água desta caneca é assim, sempre boa e doce, saudável e fresca? É porque a caneca é um sacramento. A caneca/sacramento confere a qualquer água bondade, doçura, frescor e saúde.

Mas, afinal, o que é um SACRAMENTO?

Hoje muita gente não sabe mais o que é um sacramento. Os antigos sabiam. Eu custei para aprender. Durante cinco anos estudei muitas horas por dia tudo que se escreveu sobre sacramento, nas línguas cristãs, dos dias da Bíblia até hoje. Foi uma batalha da mente e do espírito. Daí resultaram 552 páginas impressas e publicadas em livro. Mas esse não foi o principal resultado. Depois de tanto esforço, raiva, alegria, maldição e benção, descobri aquilo que estava sempre descoberto. Provei o óbvio. O sacramento é aquilo que eu sempre vivia e todos vivem, mas que não sabia e poucos sabem. Tornei a contemplar a paisagem que está sempre à nossa frente. O dia a dia é sempre cheio de sacramentos.

No cotidiano aparecem os sacramentos vivos, vividos e verdadeiros. É a caneca da minha família, a comida da mamãe, o último toco de cigarro de palha deixado por meu pai e guardado com todo carinho; a velha mesa de trabalho, uma vela grossa de Natal, o mesmo vaso em cima da mesa, aquele pedaço de montanha onde vislumbro o velho caminho pedregoso; a velha casa paterna... Estas coisas deixaram de ser coisas. Elas ficaram gente. Falam. Podemos ouvir sua voz e sua mensagem. Elas possuem um interior e um coração. Tornaram-se sacramentos.

Em outras palavras: são SINAIS que exibem, rememoram, visualizam e comunicam outra realidade diferente delas, mas presente nelas.

A nossa sociedade vive entre sacramentos, mas nem sempre tem um olhar capaz de enxergá-los. É porque vê as coisas como coisas. Vê o que está fora. Há uma luz que ilumina as coisas tornando-as transparentes. Podemos perceber isso olhando para aquela caneca, misturada a tantos outros utensílios de cozinha...

A caneca vista de fora: o olhar científico

A caneca que descrevemos acima pode ser vista do lado de fora. É uma caneca como todas as outras. Provavelmente mais feia, envelhecida e disfuncional. Ela é de alumínio. Ela pode interessar a um físico ou a um químico enquanto analisam os componentes do alumínio. Um economista pode trazer uma série de informações e cálculos sobre o preço do alumínio, sua cotação no mercado internacional, sua extração, produção, reservas, comercialização.

Um historiador (digamos que se trata de uma caneca do tempo de Augusto Romano) pode ocupar-se dela e situá-la no tempo e no espaço da História. Um artista pode considerá-la um objeto sem qualquer valor estético. Os museus não irão querê-la, pois não pertenceu a ninguém famoso e, por si, não significa nada.

Todos veem a caneca como coisa. É típico do olhar da nossa época, especialmente a partir do século XV, considerar tudo como coisa, sobre a qual podemos nos debruçar e analisar o que podemos ver. Fazemos de tudo objeto de pesquisa científica: deus, a natureza, o homem, a história. Colocamos tudo à nossa frente e apontamos nosso olhar investigador e científico.

Podemos fazer muitas ciências sobre um mesmo objeto, pois ele interessa a vários olhares científicos. Mas também podemos dizer que, hoje, graças a Google, Wikipédia, WhatsApp e todas as outras ferramentas das redes sociais, sabemos cada vez menos sobre cada vez mais...

A caneca analisada assim é um objeto entre outros tantos objetos. Ela não fez história com ninguém e não entrou na vida de ninguém...

A caneca vista de dentro: o olhar sacramental

Pode acontecer que alguém cativou uma caneca. Essa caneca salvou alguém da sede do deserto sem fim. Ou, como num caso mais simples como o meu, a caneca entrou na história da minha vida e da minha família. Ela tornou-se única no mundo. Não há nenhuma igual a ela. Ela deixou de ser objeto. Tornou-se sujeito. Possui, como todos os sujeitos, uma história que pode ser contada e lembrada. Houve um relacionamento profundo com a caneca/coisa. Esse relacionamento de amor criou em nós um olhar que permite ver um valor inestimável existente na caneca. Por isso ela ganha um nome. Inscreve-se dentro do mundo do homem e começa a falar...

A caneca fala da infância e das primeiras sedes saciadas por ela. Fala da água buscada no poço distante, a 600 metros da casa, poço profundo e de águas virginais, mas que nos fazia rogar pragas e sofrer nas manhãs de inverno ou nas tardes chuvosas e que por isso tornava a água tanto mais preciosa e casta.

A caneca fala da história familiar que ela acompanhou, na vida e na morte. Ela foi entrando na família, aos poucos, cada vez mais. No final era como um filho a mais, cercado de carinho. Até hoje ela está lá, ainda a falar e a relembrar, na fidelidade e na humildade de servir a água que agora ficou doce, fresca e boa por causa da caneca...

Essa é a visão do interior da caneca. Foi o relacionamento havido com ela que a fez ser um sacramento familiar.

Concluindo... mas nem tanto.

Ao olhar uma coisa pelo lado de fora, concentro-me nela, debruço-me sobre ela, manipulo-a, transformo-a e deixo que a coisa fique nada mais que coisa, objeto do uso e, frequentemente, do abuso humano. É o pensar científico de nosso tempo. Não é necessariamente mau. É apenas diferente. Afinal, como poderíamos ser inimigos do nosso próprio mundo, que com esse olhar científico nos alonga e facilita a vida, nos prolonga a ação de braços, pernas, olhos e cérebro, com instrumentos poderosos e surpreendentes, fazendo-nos cada vez mais, senhores da Natureza? Mas o homem é só isso? É apenas um robô de ações, um computador de informações e uma lente macro e microscópica orientada para o mundo? Ou ele é aquele que pode se relacionar humanamente com as coisas, ver valores e detectar um sentido nelas?

Ao olhar uma coisa pelo lado de dentro não me concentro nela, mas no valor e no sentido que ela assume para mim. Ela deixa de ser coisa para se transformar num símbolo e num sinal que me chama, provoca e convoca para situações, recordações e o sentido que ela encarna e expressa.

Sacramento significa exatamente esta realidade do mundo que, sem deixar o mundo, fala de um outro mundo, o mundo humano das vivências profundas, dos valores inquestionáveis e do sentido plenificador da vida.

Compreender este pensar é abrir-se para a acolhida dos sacramentos da Fé. Eles radicalizam os sacramentos naturais nos quais vivemos em nosso dia a dia.

O sacramento modifica o mundo: a água pode ser qualquer água. Mas desde que seja servida e bebida na caneca/sacramento, para aquele que entende e vive a visão interior das coisas, ela é doce, saudável, fresca e boa. Comunica vida. Fala do mistério que mora nas coisas.

A caneca de alumínio está lá, na cozinha, na sua tranquila dignidade, entre tantos objetos e coisas domésticas. É velha. Mas só ela conserva a perene juventude da vida. Só ela vive entre coisas mortas, só ela é sujeito entre tantos objetos. Só ela fala entre tantas coisas mudas.

Só ela é sacramento, na humildade de uma cozinha familiar.

Texto extraído e adaptado (com autorização do autor) do livro “Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos” - BOFF, L - Petrópolis - Ed. Vozes.

17ª edição, pg 9/15

Adaptação: Eduardo Machado