Um espetáculo em preto e branco

Publicado em 29/1/2019 por: Eduardo Machado

Em meio ao impacto do noticiário massivo da tragédia de Brumadinho, vejo o filme “Roma” com o coração e a memória em angustiada ebulição.

Foi uma surpresa. Ou várias.

O filme, dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón (Gravidade, O labirinto do Fauno...), recebeu 10 indicações ao Oscar. Já faturou o Leão de Ouro de melhor filme no Festival de Veneza e só não recebeu o Globo de Ouro na mesma categoria por conta de um muro, ou melhor, uma regra que diz que apenas filmes feitos em língua inglesa podem concorrer. O que não é o caso de Roma, inteiramente falado em espanhol.

A história se passa no início dos anos 1970, num bairro chamado Roma, na cidade do México.

Aqui cabe uma pergunta: que história?

A surpreendente câmera de Cuarón acompanha sem pressa a rotina silenciosa de uma moça, Cleo, (Yalitza Aparicio), que mora e trabalha como babá e empregada doméstica na casa de uma família de classe média mexicana.

Em vários momentos o filme remeteu minhas lembranças à obra de Autran Dourado, “Uma vida em segredo”, que li na adolescência, onde a figura da humilde Biela, com seu jeito acanhado, leva a inevitáveis contatos com Cleo, a empregada mexicana. Ambas revelam personagens que são símbolo de um mundo pobre, rude, onipresente e invisível. Mas Cuarón convida a ir além da superfície das coisas e pessoas.

Apresenta o filme em preto e branco, o que não significa apenas uma opção estética. A realidade da vida de Cleo tem poucas cores. Em destaque, as banalidades do dia a dia, as sequências repetitivas, longas, por vezes cansativas, tão monótonas como o ir e vir das tarefas domésticas (todo dia ela faz tudo sempre igual...). Em oposição aos efeitos especiais espetaculares dos blockbusthers de super-heróis ultrapoderosos, Roma é um filme lento, arrastado, onde é a delicadeza nua e crua da personagem central que tem o suave poder de iluminar tudo e todos que ela toca e, literalmente, abraça.

Até na cena da qual ela poderia emergir como uma verdadeira heroína, o que se destaca é uma imensa, demorada e angustiante sensação de que deveria acontecer algo espetacular, que não acontece. Da ficção possível, sobra apenas o real.

Tudo e todos giram em trono de Cleo e ela parece ser ninguém.

Se fosse uma novela da nossa TV não ficaria uma semana em cartaz. Um autor de novelas precisa escrever 300 capítulos em que todos, sem exceção, terminem com uma emoção no ar, uma dúvida, um susto, um flagrante, um quase beijo a nos pegar pela curiosidade que alimenta a expectativa pelas cenas dos próximos capítulos.

Não é nem será assim na vida de Cleo, das milhões de Cleos espalhadas pelo mundo, algumas delas bem próximas de nós.

Antes de dormir, ela percorrerá silenciosamente os cômodos da casa, abençoando crianças que não são suas, recolhendo brinquedos e roupas largados pelo chão, apagando luzes, fechando portas e janelas, catando o cocô do cachorro que, amanhã, estará de novo à sua espera.

Respiro (ou suspiro?) de dor e alívio, diante da homenagem cinematográfica à triste e irresistível beleza dessa banalidade invisível, que Trump e outros estúpidos tiranos querem negar e excluir com muros e fakes. Eles nunca serão capazes de entender que a Arte ‘nos salva e nos salvará dessas trevas, e nada mais’...

Os eleitores do Oscar e os assinantes do Netflix estarão perplexos diante desse espetáculo em preto e branco, assim como estamos diante do marrom ocre das também onipresentes lamas da Vale.

E não estou falando de cores...

Eduardo Machado