O trote é o bisavô das Fakenews

Publicado em 19/3/2019 por: Eduardo Machado

Trote

- Alô. Podem mandar uma viatura aqui na rua Mendes de Oliveira. Tá tendo um assalto num bar, em frente ao número 475.

- Alô, é do Corpo de Bombeiros? Tá havendo um incêndio num prédio, na rua Sete Lagoas, no bairro Bonfim...

- Alô, tá tendo uma briga de gangues aqui na entrada do morro do Papagaio. Tiro prá todo lado...

O efeito trote.

Daniela Eduarda Alves, de 23 anos, foi morta a facadas pelo companheiro em Fazenda Rio Grande, Região Metropolitana de Curitiba. A Polícia Militar recebeu diversas chamadas de vizinhos, denunciando a agressão em andamento. A primeira viatura chegou ao local mais de uma hora depois do crime consumado. Os atendentes do 190 disseram que recebem muitas denúncias de briga entre marido e mulher, ocorrência que não é prioridade se comparada com outros crimes. Além do mais, grande parte dessas e de outras denúncias são trotes.

O trote vira Fake.

"Padre Anchieta, né? Massacre escolar agendado"!

A mensagem, acompanhada da foto de uma arma, circulou entre alunos e pais de diversos colégios do interior de São Paulo, no dia seguinte à chacina na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano. A suposta ameaça, é claro, causou pânico entre alunos, familiares e professores. Era Fake.

Fakenews vira tragédia.

Moradores de um bairro do Guarujá, SP, lincharam Fabiane Maria de Jesus, após boatos na internet de que havia uma mulher tentando roubar bebês que seriam usados em rituais de magia negra. Fabiane era deficiente, tinha dificuldades de comunicação e não conseguiu explicar que não era uma criminosa. Casada, mãe de uma criança de nove anos, foi espancada até a morte. As cenas do linchamento foram filmadas por inúmeros celulares e postadas nas redes sociais.

A morte em Rede

O assassino que, na semana passada, matou dezenas de pessoas em duas mesquitas, na Nova Zelândia, transmitiu sua loucura brutal pelo Facebook. Milhões de pessoas, no mundo inteiro, acompanharam, em tempo real, o que parecia ser um videogame. Era a morte, ao vivo...

Nosso mundo

Levantamentos feitos pela Polícia Militar e pelo Corpo de Bombeiros indicam que estudantes são os principais autores de trotes e Fakenews. Estatísticas mostram que grande parte das ligações e postagens coincide com o horário de saída das escolas. Os números são assustadores. De cada quatro ligações com denúncias ou chamadas de emergência, uma é trote. Já as Fakenews nem dá pra mensurar. Você, que lê agora esse texto, deve ter recebido várias, só hoje, sem nem saber.

Num país em que há mais celulares que habitantes - segundo Anatel o Brasil terminou dezembro de 2018 com 229,2 milhões de celulares - dá pra imaginar o dano potencial que essa prática pode gerar.

Danos.

As Redes Sociais facilitaram a comunicação direta entre as pessoas, democratizaram a informação, mas também abriram espaço pra muita merda.

Principalmente em campanhas eleitorais, são montados esquemas através dos quais são contratadas empresas especializadas em publicar notícias falsas na Rede, usando robôs. Um vale tudo em que vale a máxima malufista que diz: “em eleição, o feio é perder”.

Mesmo fora do universo político, as Fakenews proliferam feito erva daninha. A notícia falsa avulsa, postada via celular ou no computador, em casa, tem o mesmo potencial destrutivo, ou mais.

Efeitos colaterais

Todo dia tem alguém se informatizando, entrando pela primeira vez nesse cenário deslumbrante que é a Internet. E o novato deslumbrado, empolgado, capricha. E vamos todos ficando viralizados.

Quem repassa uma Fakenews pode não ter noção da gravidade desse gesto, que é neto do trote. Na maioria das vezes parece ser só uma brincadeira, uma piada inocente. É aí que está a ponta do iceberg, ou pior, da merda...

Antídoto

Tem antídoto pra essa praga? Sim.

Se você receber uma mensagem suspeita, não repasse, a não ser que tenha ABSOLUTA CERTEZA da veracidade do seu conteúdo. Se você não tem como comprovar a história, não confie nem na idoneidade de quem enviou. Pessoas honestas, respeitáveis, confiáveis também vão ao banheiro e, portanto, também fazem merda! Às vezes sem querer, mas fazem. Repassam bobagens e mentiras achando que estão ajudando a salvar o mundo. É a merda altruística.

Há sites na Rede onde é possível conferir a veracidade de informações. Quer conferir? É só clicar:

( https://www.techtudo.com.br/…/como-identificar-fake-news-oi… )

Concluindo, mas nem tanto...

Hoje, com o mundo vivendo em plena Idade Mídia, crianças, adolescentes e jovens têm capacidade de distinguir quando estão fazendo algo errado. Muito errado. Adultos, educadores, tem o papel insubstituível de mostrar que, via tecnologia, podemos até ter o mundo nas mãos, ao alcance de um click, mas o uso irresponsável desse poder pode ter consequências trágicas.

Trotes e Fakenews pertencem à mesma família de crimes. E matam! Esperanças, verdades e pessoas...

Eduardo Machado