Segundona: Dia internacional do ser humano comum

Publicado em 26/3/2019 por: Eduardo Machado

Tenho inesgotável admiração pelo ser humano comum. Celebridades, em geral, são previsíveis na sua agônica busca por se celebrizar sempre e mais. Já o ser humano comum, essa criatura que está começando mais uma semana plena de anonimato, pode ser uma permanente fonte de surpresas.

Um Neymar, por exemplo, quando está em campo, é certo que vai dar dois dribles espetaculares e cair. Fora de campo dirá ou fará, com certeza, alguma asneira que vai virar manchete ou meme no minuto seguinte.

A bancada BBB do mundo político (Bala, Boi e Bíblia), em especial nos tempos que vivemos, está repleto de celebridades instantâneas, pródigas em declarações nem tão célebres assim, mas igualmente previsíveis.

Já da boca daquele sujeito no ponto do ônibus, do taxista, do motorista de aplicativo, daquela moça que te atende no balcão da farmácia, na padaria, podem sair frases definitivas, dignas de um Sartre ou de uma Simone de Beauvoir.

Outro dia, na minha confraria do boteco do Carrapicho, no Bonfim, contava minha desdita em razão de um desarranjo intestinal provocado por um hotissíssimo-dog consumido num “podrão da madrugada”. Mal engoli, senti como se uma granada tivesse caído no meu estômago. Ficou uma coisa presa entre o incisivo e o canino, puxei, era o pino. Pronto, cinco dias de carreirinha...

Meu amigo Marcha Lenta, taxista, pós doutor em volante e conversa fiada, pergunta: já melhorou? Ficou livre do desassossego? Respondi: tô melhorando. E ele encerrou a questão, pontificando: ‘um homem só será realmente livre quando puder peidar sem medo de se borrar’...

Com perdão da expressão chula que, pode ofender ouvidos e narinas mais sensíveis, nunca ouvi nada mais filosófico, luftalmente e gastrointestinalmente verdadeiro e profundo. E, em se tratando do assunto abordado, bota profundo nisso.

O ser humano comum é assim. Enquanto celebridades se ocupam em inventar coisas espalhafatosas, como o avião, o ser humano comum inventa o clips e mergulha no anonimato.

Até hoje há um debate candente entre americanos e boa parte do mundo sobre quem efetivamente fez o primeiro voo autônomo com o mais pesado que o ar, mas ninguém se interessa em saber quem inventou o ‘clips’. Nem eu. E esse pedacinho engenhoso de arame faz parte da vida de todo mundo, mesmo nesses tempos digitalizados em que o papel está entrando em extinção.

Nunca na vida serei capaz de sequer sonhar em ter um avião, mas clips? Aos montes.

O ser humano comum se ocupa das coisas simples que fazem parte do nosso dia a dia mais banal. Por isso, observador atento das coisas comezinhas, ele é capaz de produzir objetos, frases e reflexões formidáveis.

Já pensou, por exemplo, na capacidade de síntese da expressão, “mala sem alça”?

Primeiro você tem que se imaginar num aeroporto da era Lula. Filas imensas de gente tagarelando como se estivesse numa rodoviária, no exercício pleno da democracia social. Balcões de check-in lotados, parados, pois o sistema caiu, os pilotos em operação padrão e você puxando a mala do seu cunhado (que está no banheiro há meia hora), sem alça e com a rodinha travada (a mala, não o cunhado).

Pronto: tava inventado o epíteto perfeito pru seu cunhado (e pra todos os cunhados) folgado: mala sem alça! E ele estava ali, à sua frente (ou melhor, a seus pés) era só olhar e constatar.

O território literário perfeito para o ser humano comum é a crônica que, não por acaso, é considerada por muitos a prima pobre da literatura. Não acho. Enquanto o peso de obras clássicas enchem prateleiras, o cronista enche o cotidiano.

O francês Marcel Proust consumiu a vida inteira escrevendo uma única e monumental obra, “Em busca do tempo perdido”. Mais que um título, era uma premonição para o escritor, morto aos 51 anos. Não que tenha sido tempo perdido escrever os sete volumes. Sua obra é monumental não apenas no tamanho, mas no conteúdo, mergulho profundo nas contradições da alma humana que ficou como seu legado à humanidade. Mas admiro de igual forma, mestres da literatura, em prosa ou poesia, monumentos como Machado de Assis e Drummond, que desdobraram seu talento também em crônicas geniais onde descobriam e revelavam o extraordinário presente no mais ordinário da vida.

Aliás, penso que é observando o cotidiano mais chinfrim que o grande escritor se torna capaz de arriscar os grandes voos literários. Quem quer se enveredar e se encantar na densidade abissal das veredas do ‘Grande Sertão’, do Guimarães Rosa, precisa, antes, ler os contos de Sagarana.

Quem se delicia com as ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’ ou compartilha as dúvidas de Bentinho com relação à Capitu, em Dom Casmurro, tem que arriscar um passeio pelas ‘Crônicas do Dr. Semana’, publicadas em jornais de 1864.

Mas, talvez, o ser humano ordinário, comum, tenha vislumbrado seu encontro mais profundo com o extraordinário através da Espiritualidade Inaciana, quando Inácio de Loyola, a partir de sua experiência místico/mundana, tirou Deus do céu longínquo, distante, inalcançável, e o colocou ‘no meio de nós’.

Na espiritualidade de mosteiro, que vigorava naqueles tempos (sec. XVI), o homem tinha que rejeitar o mundo, fugir do mundo com suas tentações para se encontrar com Deus. Inácio inverte o caminho. É Deus que vem até nós e se mistura conosco. Deus ama o mundo. Rejeitar o mundo é exilar-se de Deus. Na visão de Inácio, desde a encarnação, o mundo se faz altar. É no cotidiano comum que se celebra a vida.

O Deus terrível, assustador e vingativo, do mundo enciclopédico do Velho Testamento, ganha outro rosto e sentido nas crônicas dos evangelhos, dos atos dos apóstolos, das cartas paulinas.

Quer coisa mais banal que uma carta...???

Mas há um outro detalhe que desvenda e acrescenta mistérios aos já muitos mistérios da nossa fé: o ‘evangelho silencioso’, não escrito, da vida da Jesus.

Os evangelistas não são biógrafos. Infelizmente. Eles se restringem a narrar episódios que jogam luz à mensagem da Boa Nova, trazida por Jesus. Alguma coisa do seu nascimento, nada da sua infância, um episódio isolado na adolescência e um grande silêncio a partir daí. Só vamos reencontrar Jesus já adulto. Dos trinta e poucos anos de sua vida ‘encarnada’, cerca de trinta foram de absoluto anonimato, quando ele foi um homem absolutamente comum.

Quando mergulhou no que chamamos de vida pública, Jesus chamou para estar com ele os lideres e as celebridades do seu tempo? Não. Cercou-se de gente mais que comum; pescadores, cobradores de impostos, os desprezados e excluídos do seu tempo.

Tenho inesgotável admiração por um Deus assim, tão humano e comum...

Eduardo Machado