CASA GRANDE, SENZALA, ASNOS E IDIOTAS ÚTEIS

Publicado em 21/5/2019 por: Eduardo Machado

Rezando o salmo 112(113), da liturgia do dia 14/05, terça feira, me vejo diante das seguintes palavras:

“O Senhor levantou da poeira o indigente, e do lixo retirou o miserável para fazê-lo assentar-se ao lado dos nobres do seu povo”.

De imediato, lembrei-me da história de um menino que, em 1952, aos sete anos, saiu com sua mãe e os muitos irmãos de Garanhuns, no sertão de Pernambuco, enfrentou treze dias de viagem num pau-de-arara até chegar a São Paulo, fugindo da miséria, da fome e de um futuro que prometia ainda mais miséria e fome.

Na cidade grande, as perspectivas também não eram muito promissoras para aquele migrante nordestino que, como tantos, poderia sonhar, na melhor das hipóteses, em passar a vida assentando tijolos numa obra ou ajustando parafusos numa fábrica.

O menino foi um pouco mais longe...

Numa trajetória de vida surpreendente e absolutamente improvável, se fez operário, líder sindical e político e tornou-se o 35° presidente eleito da República Federativa do Brasil.

Mas... os nobres não conseguiram suportar a petulância atrevida desse menino que, além de ascender à Casa Grande, sonhou trazer com ele os outros moradores da senzala.

E a intolerância não reside apenas aqui...

Quando, em agosto de 2008, Barak Obama foi escolhido para concorrer, como candidato dos democratas, à presidência dos EUA, um assessor do então presidente Bush perguntou quem era ele e teve como resposta: “é aquele preto de Harvard”.

Um preto de Harvard, um peão de Garanhuns...

Meus companheiros de luta sonham com um Lula livre. Ele nunca será. Assim como Obama não será capaz de se livrar da cor da sua pele e será, aos olhos de muitos, quando muito, ‘um preto de alma branca’...

O racismo, a intolerância, o ódio racial e social são o caldo de cultura em que eu e os brancos do sul maravilha como eu, fomos criados. O racismo, e outros preconceitos muitos, estão entranhados em mim, em nós, como um DNA maligno e inevitável, absorvido no leite materno, vivido, das carteiras da educação infantil às salas da Universidade.

Nas escolas onde trabalhei o lugar dos negros era na faxina e nos serviços gerais...

Lula é humano. Obama também. Assim como o preto de Harvard terá que lidar com os fantasmas dos mortos durante a sua gestão, nas guerras declaradas e anônimas que seu país costuma semear pelo mundo, Lula também não vai se livrar do seu fantasma; o erro político fatal que cometeu ao imaginar que poderia conviver com os “nobres”, os senhores da Casa Grande.

Pensou que poderia sentar-se à mesa com eles, como fazia em seus tempos de sindicato dos metalúrgicos, e negociar políticas públicas que beneficiassem o país da maioria dos peões e pretos que somos e que, de repente, começaram a frequentar faculdades e aeroportos, não mais como faxineiros e serviçais, mas como alunos, e passageiros.

Ódios ancestrais não são passageiros...

A Casa Grande tem seus sortilégios. Pegou Lula pela vaidade e Obama contribuiu para isso quando declarou: “esse é o cara”!

O cara se elegeu, foi reeleito, elegeu e reelegeu sua sucessora. O peão foi longe demais. Nem o preto de Harvard tinha conseguido tal proeza. Foi sucedido por um inacreditável Donald Trump!

A Casa Grande tinha seus trunfos, truques e cunhas, aprendidos desde a armada de Cabral.

Para derrubar uma presidente eleita ou prender e tirar do jogo eleitoral um candidato que começava a disputa com quase 40% de preferência dos eleitores, a Casa Grande não precisa de provas, só denúncias, e alguém em cima do Moro, digo, muro, de olho num ministério aqui e numa vaga no STF acolá.

Ah, Lula, vaidade das vaidades, tudo é vaidade...

Conhecemos bem o caminho das seduções e mimos. Poderíamos até nos perguntar; o que é a reforma de um sítio do amigo dos amigos e um apto. no Guarujá, perto das histórias que correm a malas soltas?

Pois foi o suficiente para colá-lo na cadeia e, assim, abrir caminho para que se entronizasse um asno chucro, mentiroso contumaz, incompetente, marginal, violento, racista, misógino, homofóbico, ignorante e DESONESTO na Presidência.

Esse é o quadro, senhores e senhoras eleitores do asno.

Vá lá, admitamos que o Lula é ladrão, que todos os petistas são ladrões, que todo mundo que tem pensamento socialista é ladrão. Em nome disso você se sentiu justificado para eleger o asno que ora está no poder?

Alguém que montou uma quadrilha com seus filhotes para abocanhar dinheiro do salário de assessores reais (como o Queiroz) ou fantasmas, como os milicianos foragidos?

Alguém que tem como herói um assassino torturador, covarde e brutal?

Alguém que em quatro meses de mandato já foi duas vezes aos states lamber o saco do Trump?

Alguém que mostra absoluta ignorância e desprezo por ideias, arte, cultura, ecologia?

Ele que, quando era deputado federal, foi assaltado por dois criminosos que acabaram levando sua motocicleta e a pistola Glock calibre 380 que carregava debaixo da jaqueta, e tem, agora, como única proposta, distribuir armas para “os cidadãos de bem”, como os que recentemente fuzilaram um músico e um catador, no Rio de Janeiro?

Quem tem olhos, veja!

O que vemos é o que temos, o que sempre tivemos, aquilo que um barbudo chamado Marx, lá no sec. XIX chamava de mais-valia (vulgo, PIB): a riqueza criada pelo trabalhador que não beneficia o trabalhador, mas se concentra nas mãos dos proprietários da Casa Grande.

Só que...

O asno vai ter que se virar para sufocar a reação, que está apenas começando, dos “idiotas úteis, militantes, massa de manobra que não sabe a fórmula da água e nem o resultado de 7X8”...

Água mole em asno duro. Estamos fazendo a conta. Já, já chegamos ao X da questão...

Tá apenas começando...

Eduardo Machado