Ateu, comunista e comedor de criancinha

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Daniel Sottomaior,
Presidente da Associação Brasileira de Agnósticos e Ateus.


Essas três características, postas assim mesmo num único fôlego, por muitas décadas formaram um casamento indissolúvel que representa tudo de ruim que deve ser temido e evitado pela sociedade. Mas duas delas praticamente desapareceram do nosso vocabulário. Hoje em dia o comunismo perdeu grande parte de sua força e seu apelo, tirando todo sentido do anticomunismo. E a expressão "comedores de criancinhas" (que alguns afirmam ter se originado em relatos de canibalismo devido à fome causada atrás da cortina de ferro) adquiriu nos últimos anos um novo e irônico significado que nenhum marxista-leninista poderia imaginar. Os ateus, no entanto, continuam bem no topo da lista de inimigos públicos.

De padres a pastores, de papas a pais-de-santo, jornalistas, políticos e taxistas, parece não ter fim a lista das pessoas que se sentem no direito de nos atribuir praticamente todos os males da humanidade, a despeito dos dados em contrário. No Brasil e em muitos outros países, ateísmo não é adjetivo, é acusação. É o que políticos dizem uns dos outros quando tentam desqualificá-los ao máximo. E o pior: funciona. Não desejo instigar a inimizade, mas é preciso esclarecer os fatos. Se as evidências apoiassem a má ideia generalizada que se faz dos ateus, teríamos que dar a mão à palmatória.

Mas ocorre o contrário, e é imprescindível que isso fique claro para ajudar a pôr fim a esse odioso preconceito contra os ateus. As prisões não estão cheias de ateus, e os hospitais também não. Os países menos religiosos e com maiores índices de ateísmo não estão entre os que têm piores indicadores de renda, igualdade social, criminalidade e tantos outros índices importantes (na verdade, acontece o oposto). Grandes e pequenos escândalos de todos os tipos -- sexuais, de corrupção e todos os outros -- não mostram qualquer tendência a revelar réus ateus.

Déspostas europeus, século após século, não estavam promovendo o ateísmo. Nem os senhores de escravos no Brasil ou qualquer outro lugar do mundo durante os milênios em que durou essa abjeta instituição. Não era uma saudação ao ateísmo que constava nas fivelas de cinto de todos os membros do Wehrmacht, as forças armadas nazistas. Não era o ateísmo a preferência de Hitler, Mussolini, Tiso, Franco, Hussein, Pinochet, os Duvaliers e seus tonton macoutes, Videla, Stroessner, e da imensa parte de seus fieis seguidores. Aqui no Brasil, também não era o ateísmo que promoviam as forças armadas durante a ditadura militar (ou qualquer uma das anteriores).

Não consta que fossem ateus os membros do DOPS ou que eles ornassem seus porões com símbolos diferentes dos afixados nas demais repartições públicas brasileiras. Para resumir em uma frase, com ou sem religião, há pessoas boas fazendo coisas boas, pessoas más fazendo coisas más, e não raro também pessoas más fazendo coisas boas (ninguém é completamente mau) e pessoas boas fazendo coisas más (ninguém é completamente bom).

Mas a lenda da maldade dos ateus persiste. Lamentavelmente, os livros sagrados das religiões mais populares do planeta, assim como grande parte dos seus líderes, são ricos em declarações que apoiam essa lenda e não promovem apenas a intolerância como também o ódio, a violência física e mesmo a morte dos descrentes. Daí a especial importância dos religiosos moderados, tanto sacerdotes como fieis, em trazer seus colegas para dentro do círculo da convivência respeitosa e democrática que inclui cidadãos não apenas de todas as cores e gêneros, como de todas as crenças e descrenças.

Edmund Burke foi um grande crítico do ateísmo, mas não me canso de citar um de seus pensamentos: "para que o mal triunfe, basta que os homens de bem nada façam". Enquanto muitos religiosos de bem se omitem, trazem péssimo nome a si e aos seus, e permitem que os males do ódio triunfem em seu meio. Que fique bem claro: nem o ateísmo nem o agnosticismo estão acima de crítica ou discordância. Muito pelo contrário. Desejamos estimular a dúvida, o livre-pensamento, o pensamento crítico, o método científico e o amplo debate de ideias.

Propomos exatamente os mesmos e rigorosos padrões de crítica tanto ao ateísmo como a todas as formas de teísmo e de princípios religiosos. Mas criticar ideias é completamente diferente de criticar pessoas.

Pessoas merecem respeito. Doutrinas, não. Não cabe apenas aos ateus denunciar o ódio que recai sobre nós e aqueles que o promovem. Combater o preconceito é obrigação moral de de todo cidadão.

Infelizmente, ainda prevalecem atitudes de concordância explícita ou de silêncio apoiador. Mas tenho a felicidade de conhecer alguns religiosos que destoam desse cenário e não têm medo de proclamar abertamente e com todas as letras a merecida dignidade dos ateus e o espaço que necessariamente devem ocupar em uma sociedade plural regida por um Estado laico. Espero que muitos mais sigam esse nobre exemplo, e que os outros se envergonhem por não segui-lo.

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