Pílulas Espirituais - 08/agosto

Publicado em 9/8/2018 por: Pe. Pedro Magalhães Guimarães Ferreira S.J.

345.“Muitos poderiam ser tentados a achar que o misticismo de São João da Cruz é completamente anti-intelectual e anti-racional. Se isso fosse verdade, o santo teria que ser considerado completamente alheio ao “clima” intelectual da teologia católica. A autoridade magisterial da Igreja, propondo constantemente São Tomás de Aquino como o guia e modelo para os teólogos católicos está nos antípodas de todo anti-intelectualismo. A estrutura teológica do Catolicismo culmina em uma contemplação mística que é apoiada [...] por uma teologia especulativa e por uma filosofia que mostra o maior respeito pela luz da razão. O misticismo católico não é de forma alguma um refúgio para o qual iriam os santos, fugindo de um universo ininteligível; é, pelo contrário, a coroa e glória do espírito humano. Ele preenche as mais altas aspirações da teologia, da metafísica e cosmologia, que encontram um mundo transparentemente inteligível, porque ‘carregado com a grandeza de Deus’”. [Esta última expressão é o início de um poema de Gerard Manley Hopkins SJ] (Idem, pp. 86s)

346.“Um simples olhar nas obras de São João da Cruz, mostra que ele deve ter tido familiaridade com a Prima Secundae [da Summa Theologiae de São Tomás de Aquino]. As seis primeiras questões [na realidade, se trata das questões 2ª. à 5ª.], nas quais São Tomás trata da suprema contemplação [de Deus, no céu] não somente influenciou São João da Cruz, mas lhe forneceu a estrutura básica de toda a sua doutrina. É certamente uma surpresa para muito saber que os princípios sem compromissos de completo desapego das criaturas a fim de alcançar a união com Deus, são muitas vezes citações literais de São Tomás [...]. Praticamente toda a Subida do Monte Carmelo [de São João da Cruz] pode ser reduzida a estas páginas do Doutor Angélico [São Tomás]. [Acho meio exagerada esta afirmação de Merton.] (Idem, p. 182)

347.“... há que abandonar toda especulação de ordem intelectual e concentrar em Deus a totalidade das nossas aspirações. Isto é algo misterioso e secretíssimo, que só pode conhecer aquele que o recebe, e ninguém recebe se não o que deseja e não o deseja se não quem é inflamado no mais íntimo pelo fogo do Espírito Santo que Cristo enviou à terra. [...]. Se queres saber como se realiza isto, pergunta à graça, não ao saber humano, pergunta ao desejo e não ao entendimento, pergunta ao gemido expressado na oração, não ao estudo e à leitura; pergunta ao Esposo, não ao Mestre; pergunta a Deus, não ao homem; pergunta à obscuridade, não à claridade; não à luz, mas sim ao fogo que abrasa totalmente e que transporta até Deus com unção suavíssima e ardentíssimos afetos. Este fogo é Deus, [...]. Aquele que de tal modo ama a morte, pode ver a Deus, [...]. Morramos, pois e entremos na obscuridade, imponhamos silêncio às nossas preocupações, desejos e imaginações; passemos com Cristo crucificado deste mundo para o Pai”. (São Boaventura, Itinerarium mentis ad Deum, cap. 7, 1. 2. 4. 6: Opera omnia 5, 312-313, apud 2ª. Leitura da 4ª. feira da 15ª. semana do Tempo Comum).

348.“Perguntado (São João da Cruz) como é que uma pessoa se arrebatava, respondeu: ‘negando a sua vontade e fazendo a de Deus, porque o êxtase não é senão sair a alma de si mesma e arrebatar-se em Deus, e isto faz o que obedece porque é sair de si e do seu próprio querer e assim aliviado, absorve-se em Deus’”. (Obras Espirituais do Doutor Místico São João da Cruz, trad. conforme 2ª. Edição do Pe. Silvério de Santa Teresa. Carmelo de São José: Fátima, 1956, pp. 82s).

Pe. Pedro M. Guimarães Ferreira S.J.