Entrevistas

Crescimento sustentável da economia - uma impossibilidade termodinâmica como proposta de longo prazo. Entrevista especial com Clóvis Cavalcanti

Publicado em 16/3/2017 por: Patricia Fachin

“Não há nenhuma semelhança, praticamente só diferenças, entre o ‘desenvolvimentismo’ dos governos do PT e a linha proposta por Celso Furtado”, diz o economista Clóvis Cavalcanti à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail. Segundo ele, as diferenças entre as duas propostas podem ser vistas na compreensão desenvolvimentista do “petismo”, que “saiu-se com essa história sem graça e perigosa, da ‘aceleração do crescimento’, antes chamada pelo candidato Lula da Silva, em 2002, de forma tola, de ‘espetáculo do crescimento’. Nada a ver com a inteligência de Furtado, para quem acelerar crescimento iria simplesmente acelerar o desfecho trágico do que ele previa: um colapso ecológico”.

Defensor da economia ecológica como alternativa à economia tal como a conhecemos, Cavalcanti explica que essa proposta “representa uma contestação ao paradigma que governa a ciência econômica dominante, o qual imagina a atividade econômica como se não existisse meio ambiente. A economia ecológica apresenta um paradigma novo, revolucionário. No modelo da economia ecológica, o sistema econômico é um subsistema aberto do ecossistema global. No da economia convencional, o sistema econômico é visto sem nenhuma alusão a um sistema exterior, maior, que o contenha”.

Nesse sentido, sublinha, “uma concepção adequada de desenvolvimento para o Brasil requer que se rompa com o paradigma mecanicista da economia convencional – a visão econômica da economia, no meu entendimento, em que o meio ambiente é excluído – e requer que se trabalhe com a visão ecológica da economia, ou seja, considerando os limites e exigências inexoráveis que a natureza impõe”. E adverte: “Para o pensamento ecológico-econômico, crescimento sustentável da economia é uma impossibilidade termodinâmica como proposta de longo prazo”.

Clóvis Cavalcanti é graduado em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, e mestre em Desenvolvimento Econômico pela Universidade de Yale, EUA. Atuou na Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – Sudene, junto com Celso Furtado e Francisco de Oliveira. Atualmente leciona na UFPE, é pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, presidente de honra da Sociedade Brasileira de Economia Ecológica - EcoEco e presidente-eleito da Sociedade Internacional de Economia Ecológica – ISEE.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são os princípios da economia ecológica e em que aspectos ela de fato se diferencia de outras correntes econômicas?

Clóvis Cavalcanti - Primeiro, que fique bem claro: a economia ecológica não é um ramo da economia. Ela representa, na verdade, uma contestação ao paradigma que governa a ciência econômica dominante, o qual imagina a atividade econômica como se não existisse meio ambiente. A economia ecológica apresenta um paradigma novo, revolucionário. No modelo da economia ecológica, o sistema econômico é um subsistema aberto do ecossistema global. No da economia convencional, o sistema econômico é visto sem nenhuma alusão a um sistema exterior, maior, que o contenha. Trata-se, segundo a classificação de sistemas da Física, de um sistema isolado. É como um animal que não tivesse aparelho digestivo; somente sistema circulatório.

A denominação economia ecológica poderia ser mudada para ecologia econômica, termo, aliás, usado pelo papa Francisco na encíclica Laudato Si’. Não faria qualquer diferença. Em suma, economia ecológica não é nem pura economia, nem pura ecologia. Significa um campo multi e transdisciplinar. Chegou-se a ele como fruto de discussões nos anos 1970-1980 envolvendo economistas, ecólogos, físicos, químicos, biólogos, filósofos, matemáticos, sociólogos, historiadores, cientistas políticos, pedagogos, demógrafos, engenheiros.

Há um ramo da economia tradicional chamado de economia ambiental. Este se refere à aplicação de instrumentos econômicos, da teoria dominante, a questões da economia que pedem uma consideração do meio ambiente. Quando isso acontece, o sistema econômico continua sendo visto como o grande todo; a natureza não passa aí de uma dispensa, de uma caixinha, de um berloque, de um almoxarifado da economia.

IHU On-Line - Quais são os principais expoentes da economia ecológica e como suas reflexões têm sido recebidas entre os economistas?

Clóvis Cavalcanti - Os economistas da roupagem padrão, com raras exceções, ignoram a economia ecológica (EE). Incomodam-se de saída com o axioma desta de que o sistema econômico é um subsistema aberto do ecossistema global. Incomodam-se com a argumentação de que as leis da natureza prevalecem sobre leis econômicas (os economistas convencionais afirmam que problemas ambientais são resolvidos pela ciência e tecnologia).

O principal expoente da EE, seu inspirador, na verdade, foi o romeno-americano Nicholas Georgescu-Roegen (1906-1994), matemático de formação. Ele escreveu várias coisas sobre o significado da visão da economia como parte do ecossistema, mas sua contribuição básica está consolidada no seu livro de 1971, The Entropy Law and the Economic Process. Nele, o autor, com rigor, faz uma apresentação revolucionária do processo econômico sob a ótica dos processos físicos, ressaltando a importância da Termodinâmica, especialmente da lei da entropia.

Daí por diante, desenvolveu-se toda uma representação de pensadores que usam Georgescu – mas não necessariamente – como ponto de partida. Nomes de relevo a esse propósito, que me ocorrem agora, são os de Kenneth Boulding (americano, falecido), Herman Daly (americano; orientando de Georgescu no doutorado), Joan Martínez Alier (catalão), Malte Faber (alemão); os americanos Joshua Farley, Richard Norgaard, Robert Costanza, Robert Ayres (este, um não seguidor de Georgescu) e John Gowdy; Peter May (brasileiro), David Barkin (mexicano), John Proops (britânico), Paul Safonov (russo), Ann-Mari Jansson (sueca, falecida) Enzo Tiezzi (italiano, falecido), Walter Pengue (argentino); Philip Fearnside, Osório Viana, Luciana Togeiro, Ademar Romeiro, Maurício Amazonas, José Eli da Veiga, Amélia Rodrigues, Cecília Lustosa, Clítia Martins. Joe Weiss, Hugo Penteado, Edison Bittencourt, Adriana Bevilacqua, Daniel Caixeta, Paulo Mibielli, Suely Chacon, Ihering Guedes Alcoforado (brasileiros). Entre outros. O espaço me obriga a omitir nomes importantes, inclusive de amigos meus como todos que citei antes (sou um homem de sorte), brasileiros e estrangeiros, a começar do próprio Nicholas Georgescu-Roegen.

IHU On-Line - Que respostas, propostas e alternativas a economia ecológica oferece à crise ecológica atual?

Clóvis Cavalcanti - Não dá, claro, para elencar tudo aqui. Mas uma coisa é certa: deve-se viver nos limites do possível. E quem determina isso é a natureza. Só existe sustentabilidade de qualquer espécie, se a sustentabilidade ecológica for respeitada como ponto de partida (tudo depende da natureza, sem suma. Ouvi Fidel Castro dizer isso em Havana, em outubro de 2003). O desejável pode se expandir de todas as formas; porém, o possível é uma ordem superior, contida, de coisas. O dia só tem 24 horas. Vida só existe onde há água. Sem biodiversidade, não há evolução biológica. Para conter a ânsia do crescimento econômico a todo custo – uma desgraça para a humanidade –, o caminho é o da frugalidade, o da “simplicidade voluntária”, como advoga Francisco na Laudato Si’. Tudo isso corresponde a uma rejeição do paradigma de vida frenético atual que impõe o consumo de bens de todo quilate, alguns absolutamente estúpidos.

Há a necessidade de abandono da fórmula consumista que permite, por exemplo, a elevação da produção de petróleo e a construção de novas refinarias. É preciso rejeitar o automóvel, evitar seu uso e sua fabricação, evitar o lançamento anual de novos modelos. Usar, sim, a bicicleta, colocando-a no espaço urbano dos carros. A prática de uma agricultura em sintonia com os ciclos da natureza, de predicados sustentáveis e que não represente agressões ao equilíbrio ecológico de que depende a sustentação da vida, constitui outra necessidade. Em resumo, impõe-se um rompimento com o paradigma da elevação sacrossanta do PIB como única fórmula de sucesso que se contempla.

IHU On-Line - Alguns especialistas apontam que a nossa época precisa enfrentar três desafios centrais: a transição energética, a luta contra a poluição química de terras aráveis e possibilitar que todos tenham acesso a uma renda decente. Quais são as propostas da economia ecológica para resolver essas três questões?

Clóvis Cavalcanti - De imediato tem-se que pensar na construção de comunidades sustentáveis, frugais, com o máximo de autossuficiência possível, tendo a energia solar como suporte básico e com emprego mínimo de substâncias químicas inventadas pelo homem como os nefandos agrotóxicos (antes de me tornar economista ecológico, virei agricultor orgânico). No que toca à renda suficiente para uma vida digna, a proposta é de solidariedade no lugar da concorrência. O modelo para isso é a natureza, a Mãe Terra, onde prevalece a cooperação. Do mesmo modo, sociedades tradicionais, onde não existe desemprego e são mínimas as desigualdades materiais entre seus membros, com regimes de troca (dádiva), podem servir de referência (etnocientistas como Gerardo Reichel-Dolmatoff e Darrell Posey falam sobre isso).

O modelo do enriquecimento absurdo que prevalece hoje, denunciado com dados, recentemente, pela Oxfam, no Fórum Mundial de Davos, tem que ser destroçado. Na verdade, ele será quando as bolhas financeiras que o alimentam estourarem. Só que a tradição é de se socorrer o sistema financeiro com dinheiro público. Enquanto isso, os sertanejos nordestinos testemunham agora seus bens se destruírem depois de seis anos de seca (talvez causada pelo sistema mundial de desenvolvimento que produz a mudança climática).

Meu cunhado, criador de gado em Garanhuns, viu seis reses suas morrerem na última semana. Um drama grave, que é de centenas de milhares de pessoas. Drama ignorado por um sistema da economia que gira unicamente em torno do dinheiro. A EE, a propósito, considera imprescindível uma nova concepção do papel da moeda na economia, em linha com sua origem como meio de troca, e não como instrumento de uma especulação sem freios no arcabouço de atividades que configuram um modelo absurdo de economia de casino.

IHU On-Line - Além dessas questões mencionadas acima, quais são as principais contribuições que a economia ecologia pode oferecer às sociedades de hoje?

Clóvis Cavalcanti - No modelo convencional da economia, ignoram-se perigosamente as leis da Termodinâmica, as quais definem todos os processos de transformação energética do universo. A produção econômica é uma transformação de matéria e energia. Na visão de Georgescu, e do ponto de vista material, por sua vez, o que o processo econômico faz é transformar riqueza (os bens da natureza) em lixo (tudo o que é produzido vira lixo algum dia; nós, inclusive). Resulta daí que, quanto mais rápido for o processo econômico, tanto mais depressa os diversos tipos de sujeira se acumularão.

No entanto, diz Georgescu, seria extremamente absurdo pensar que o processo econômico só exista para produzir lixo. Sua ressalva é de que o produto verdadeiro desse processo é um fluxo imaterial, de gozo da vida – a felicidade. É o gozo da vida ou a alegria de viver que representa a diferença entre o processo econômico e a marcha entrópica do ambiente material, explicada pela Termodinâmica. Considero essa uma contribuição fundamental da EE aos desafios atuais no mundo. De certa maneira, o papa Francisco admite a mesma coisa em sua encíclica de 2015. É uma tolice acreditar que nós, seres humanos, criamos riqueza, que o PIB constitua uma medida da riqueza produzida (os noticiários de TV repetem esse mantra diariamente. As pessoas terminam acreditando em sua mensagem). O que todos nós queremos é ser felizes, levar uma vida pacífica, desfrutar da nossa energia vital.

IHU On-Line - Que leitura o senhor faz da encíclica Laudato Si’ e como compreende um dos seus conceitos centrais, o de ecologia integral?

Clóvis Cavalcanti - É incrível como a encíclica Laudato Si’ incorpora os conceitos, as abordagens, os desenvolvimentos analíticos da EE. Trata-se, na realidade, de um documento que, tirando algumas reflexões voltadas para a fé católica – que, aliás, é a minha –, os economistas ecológicos de qualquer campo religioso ou mesmo ateu poderiam subscrever integralmente. Ela afirma, por exemplo, ser necessária uma ecologia econômica, capaz de induzir a considerar a realidade de modo mais amplo. A ideia é de que a proteção do meio ambiente deva constituir parte integrante do processo de desenvolvimento, e não ser considerada isoladamente. Ela advoga a necessidade imperiosa do humanismo, que faz apelo aos distintos saberes, incluindo o econômico, para uma visão mais integral e integradora do sistema econômico, das relações sociedade-natureza, do processo de desenvolvimento. Estamos de pleno acordo. Algum detalhe de compreensão diferente não nos impede de fazer a mesma leitura da ecologia integral contida na Laudato Si’. Papa Francisco, posso garantir, é um economista ecológico. E a noção de ecologia integral tem tudo a ver: o mundo não é um mecanismo desmontável e que se possa remontar, e sim um organismo complexo, em que todas as partes se comunicam entre si.

IHU On-Line - O tema da Campanha da Fraternidade deste ano é os biomas brasileiros. Como podemos compreender a inter-relação dos biomas a partir do conceito de ecologia integral?

Clóvis Cavalcanti - Na natureza, que é um sistema complexo em que o todo é bem mais do que a soma das partes, tudo está intimamente conectado. Samuel Murgel Branco (1930-2003), que foi professor da USP, explica muito bem isso em seu belo livro, de 1989, Ecossistêmica. Pensando assim, o conceito de ecologia integral conduz à conclusão necessária, incontestável, de que os biomas estão todos inter-relacionados. E não somente os biomas brasileiros entre si. O bioma da Caatinga se liga ao do Ártico, ao do Saara, ao da Patagônia. Nossa visão reducionista, mecanicista, analítica impede de fazer essa leitura. Mas a realidade do mundo, de todos os organismos vivos, é de uma interligação minuciosa de seus componentes. Ler a encíclica Laudato Si’ ajuda a trabalhar pela Campanha da Fraternidade de 2017. Ler o livro de Samuel Murgel Branco, da mesma forma.

IHU On-Line - Como foi seu encontro com o papa Francisco? Por quais razões o encontro ocorreu e sobre o que conversaram?

Clóvis Cavalcanti - Desde que li a encíclica papal Laudato Si’, em maio de 2015, senti o desejo de colaborar com o Vaticano na difusão e aplicação dos ensinamentos nela contidos. É que o texto do papa Francisco contém a essência da área científica a que tenho dedicado meus esforços desde meados nos anos 1980 – a economia ecológica. Ela se consubstancia na Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE, sigla em inglês), criada em 1987 e para cuja presidência fui eleito em janeiro de 2016. Nessa condição, desde que me lançaram candidato, propus que deveríamos nos aproximar do Sumo Pontífice. Depois de minha eleição, tratei de buscar o encontro com o papa Francisco. Graças a amigos argentinos, cheguei a seu secretário particular, o padre Fabián Padocchio. Assim, no dia 23 de novembro último, foi marcada a audiência com o pontífice no Vaticano.

O Papa me recebeu, juntamente com minha mulher, Vera, e um membro atuante da ISEE, Stuart Scott, que me assessorou. O encontro pessoal com Francisco foi breve. No entanto, falamos o suficiente para um acerto de perspectivas e início de cooperação. Mais que isso, o Papa e eu iniciamos aquilo que eu buscava: entendimento entre a ISEE e a Santa Sé. Vamos trabalhar juntos a fim de tornar conhecido o conteúdo, de grande valor científico, da Laudato Si’. Afirmo isso porque a elaboração da encíclica partiu de um aporte de contribuições de renomados cientistas, alguns deles vencedores do Nobel, reunidos na Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano em maio de 2014.

IHU On-Line - À época de Celso Furtado, como vocês discutiam e entendiam o desenvolvimentismo e como as questões ambientais estavam presentes nesse debate? O que Celso Furtado entendia por "desenvolvimentismo"?

Clóvis Cavalcanti - As questões ambientais eram totalmente omitidas nos debates da era do desenvolvimentismo. Raros autores trataram disso, um deles, em fase anterior, o historiador social pernambucano Gilberto Freyre (1900-1987), cujo livro Nordeste, de 1937, emprega o “critério ecológico”, como explica o autor no prefácio da obra. Um vanguardismo único no Brasil. Nenhum economista brasileiro, que seja de meu conhecimento, incluindo Furtado, tratou de problemas ambientais nos anos 1950 e 1960. Celso Furtado (1920-2004) publicou seu livro O Mito do Desenvolvimento Econômico em 1974. Aí, sim, tratou de ecologia, com base no Clube de Roma e seu relatório, de 1972, Limites ao Crescimento, e com base também no livro de 1971 de Georgescu-Roegen.

Outro vanguardismo no Brasil, o de Celso Furtado, que foi um teórico do desenvolvimento, mas não era propriamente um desenvolvimentista. Ele propunha coisas que divergiam do pensamento desenvolvimentista genérico. Falava, por exemplo, que não se devia copiar padrões de consumo dos países desenvolvidos. No seu entender, o desenvolvimento econômico – a ideia de que os povos pobres podem algum dia desfrutar das formas de vida dos atuais povos ricos – é simplesmente irrealizável. Ele pensava na geração de processos autônomos de progresso, com base em centros de decisão controlados internamente dentro do país, como alavanca do desenvolvimento. Não era um defensor da globalização.

IHU On-Line - Em que aspectos o projeto de "desenvolvimentismo" dos governos do PT se assemelha e se diferencia do proposto por Furtado?

Clóvis Cavalcanti - Não há nenhuma semelhança, praticamente só diferenças, na minha leitura (e eu convivi e conversei muito com Celso Furtado, além de lê-lo, nos anos 1964-2004) entre o "desenvolvimentismo" dos governos do PT e a linha proposta por ele. Começa que o petismo saiu-se com essa história sem graça e perigosa, da “aceleração do crescimento”, antes chamada pelo candidato Lula da Silva, em 2002 (votei nele), de forma tola, de “espetáculo do crescimento”. Nada a ver com a inteligência de Furtado, para quem acelerar crescimento iria simplesmente acelerar o desfecho trágico do que ele previa: um colapso ecológico.

Na verdade, se lembramos que o Brasil, na época em que O Mito foi editado pela primeira vez, vivia momento de aceleração do crescimento – essa, sim, uma aceleração impressionante revelada em taxas anuais de crescimento do PIB acima de 10% ao longo de cinco anos –, somente um visionário seria capaz de contestar o que a realidade momentânea sugeria. Foi o que Furtado fez. Sobre isso, diante de minha perplexidade nos artigos que escrevi sobre O Mito, Furtado me mandou uma mensagem por correio eletrônico em 9 de julho de 2002, em que diz: “Confesso que não tenho resposta para essa questão [minha perplexidade], mas reconheço que algo importante ocorreu em mim para que, no auge do chamado milagre brasileiro, que transformou Delfim Neto em gênio da raça, eu haja despertado subitamente para escrever O Mito do Desenvolvimento Econômico” (o establishment da economia convencional continua solenemente a ignorar o que Celso Furtado expôs nesse seu livro).

Esqueçam, portanto, que Furtado e o desenvolvimentismo dos governos do PT têm algo em comum. Vale acrescentar que, pelas rígidas e universais leis da Termodinâmica, o que se extrair da natureza a ela retorna inexoravelmente sob a forma de dejetos, lixo, com a mesma massa (é o que na Física se chama de matéria e energia de alta entropia). Para acelerar crescimento, acelera-se a extração de recursos (que têm baixa entropia); consequentemente, a emissão de dejetos (de alta entropia) se acelera também. Nessa ótica, um Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) pode ser denominado, sem nenhum tour de force, Programa de Aceleração da Destruição (PAD): cava buracos de um lado, alguns eternos; amontoa lixo (parte, não reciclável), do outro. Furtado sabia disso. Os governos do PT, se sabiam, jamais mencionaram qualquer sinal de que tinham consciência do problema. Na verdade, seus programas de desenvolvimento trataram o meio ambiente de forma absolutamente irresponsável, punindo inclusive a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, que tentava introduzir lucidez nas ignomínias que se cometiam (ela pediu demissão em 2008, afirmando: “Perco meu cargo, mas não perco meu juízo”).

Os mentores do PAC ignoraram solenemente os custos socioambientais do crescimento que queriam acelerar, a exemplo de Belo Monte e da Samarco (Mariana). Aumento do PIB perseguido, por uma parte, com a irresponsável suposição de zero de custos socioambientais, por outra. Não se pode configurar isso, no meu entender, a não ser como tragédia. Para mim, é como se permitíssemos a atuação entre nós de um Estado Islâmico.

IHU On-Line - Há muitas divergências entre os economistas acerca de qual seria um modelo de desenvolvimento adequado para o Brasil. Alguns apostam numa linha mais desenvolvimentista, outros, não. Que contribuições específicas a economia ecológica pode oferecer para o Brasil no sentido de pensarmos o seu “desenvolvimento”? O que seria, na sua avaliação, uma concepção adequada de “desenvolvimento” para o país?

Clóvis Cavalcanti - Não somente entre economistas existem muitas divergências acerca de qual seria um modelo de desenvolvimento adequado para o Brasil. Todas as pessoas que pensam sobre o assunto, do leigo ao cientista, terminam com propostas variadas. Isso é normal. Para mim, e para a substância do que significa a EE, uma concepção adequada de desenvolvimento para o Brasil requer que se rompa com o paradigma mecanicista da economia convencional – a visão econômica da economia, no meu entendimento, em que o meio ambiente é excluído – e requer que se trabalhe com a visão ecológica da economia, ou seja, considerando os limites e exigências inexoráveis que a natureza impõe. Para o pensamento ecológico-econômico, crescimento sustentável da economia é uma impossibilidade termodinâmica como proposta de longo prazo.

Há espaço, porém, para desenvolvimento sustentável, entendendo desenvolvimento como mudança, que pode ser apenas de ordem qualitativa. Um ponto adicional de interesse, que é do raciocínio de Georgescu, diz respeito ao que ele chama de “aritmomania”: o fato de a complexa noção de desenvolvimento econômico ter sido reduzida a um número, o PIB – ou renda – per capita. Esqueçamos o PIB. O Reino do Butão, um país dos Himalaia, já adotou, com sucesso, essa perspectiva, com a substituição do PIB pelo conceito de Felicidade Nacional Bruta (GNH, em inglês) – desde 1972. O mundo está atrasado. Fui ao Butão (junto com um grupo de pesquisadores de vários países), em 2013, a convite do governo de lá, para discutir seu modelo. O que digo se apoia nessa viagem fabulosa.

IHU On-Line - Em que consiste a Sociedade Internacional de Economia Ecológica e a Sociedade Brasileira de Economia Ecológica? Como ambas estão inseridas nas discussões atuais sobre economia ecológica?

Clóvis Cavalcanti - A Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE) é a célula-mãe que engloba a Sociedade Brasileira de Economia Ecológica (EcoEco) – sociedade, e não associação, como dito na pergunta –, além de outras que se espalham pelo mundo afora (Argentina-Uruguai, Região Andina, Meso-América, EUA, Canadá, Europa, Rússia, África, Índia, China, Austrália-Nova Zelândia). A ISEE, com suas filiadas, cuida de aprofundar e difundir a compreensão do mundo que se tem com a visão ecológica da economia. Quando ela foi criada, em 1987, conceituou-se um novo campo científico. Ele foi gestado, pois, no processo que levou à ISEE. E é esta a sua rede de eco-ecos pelo mundo que garantem o avanço da economia ecológica.

Somos nós da ISEE que produzimos a maior parte do conhecimento sobre EE, o que não exclui casos como o da Laudato Si’ ou do Butão de construir perspectivas semelhantes ou quase idênticas às nossas. Não temos monopólio de saber. Aliás, estudando povos indígenas e tradicionais do mundo inteiro, como os indígenas brasileiros, posso dar testemunho de que esses grupos humanos são praticantes da EE. Expus isso em artigo no qual criei o conceito de “etnoeconomia” (ethnoeconomics), publicado em janeiro de 2002 pelo periódico Current Sociology. Recai um pouco sob minha responsabilidade vigiar isso. É que sou presidente-eleito da ISEE desde janeiro de 2016. Em janeiro de 2018, torno-me presidente efetivo e, em janeiro de 2020, até 2022, presidente passado. Os três presidentes, em cada momento, compõem o Comitê Executivo da ISEE. Agora, preside-a efetivamente a economista ambiental e agrônoma germano-americana Sabine O’Hara. E a presidente passada é a ecologista social austríaca Marina Fischer-Kowalski. Eu mesmo sou economista convencional de origem, mas economista dissidente desde os anos 1970.

Patricia Fachin

Instituto Humanitas Unisinos