A Cabana

Publicado em 20/4/2017 por: Eduardo Machado

Fui assistir “A cabana”, com o pé atrás. Por dois motivos. O primeiro; é quase impossível fazer um filme melhor que um bom livro. Segundo; a crítica vem desancando o filme. Mas como já tive boas surpresas com histórias levadas do livro à tela e testemunhei equívocos monumentais da crítica, resolvi arriscar.

O filme, em muitos aspectos, deixa mesmo a desejar, ficando na perigosa fronteira entre a pieguice e a falta de ritmo. Um enredo poderoso fica previsível em alguns momentos, ingênuo em outros. Os atores não falam, sussurram, o que dá um ar de suavidade, mas pode, também, gerar a sensação de que os diálogos lentos e arrastados perdem credibilidade e força.

Mas são justamente os diálogos que salvam o filme, em especial quando trazem à tona as questões fundamentais propostas pelo livro: a imagem que temos de Deus, o sentido da dor na vida humana e a força poderosa e libertadora do perdão.

Nesse tempo pascal, é uma bela e oportuna reflexão: o perdão talvez seja a forma mais humana e cotidiana de ressurreição. Para quem perdoa e para quem é perdoado.

O personagem principal vive uma dessas dores dilacerantes. E tem oportunidade de discuti-la com a própria Trindade. Sãos os melhores momentos.

No livro, há uma desconstrução daquela imagem de Deus como um velho de longas barbas brancas, coisa que eu já tinha feito há tempos, em minha trajetória espiritual de busca e fé. A imagem da Trindade ousada pelo autor, transposta para a tela, tem seu lado questionador. Na leitura do livro, essa experiência é mais profunda, pois todo leitor sempre se transforma em coautor. E nada supera a nossa imaginação.

Resta resolver a questão da incômoda pieguice. Para mim, é problema resolvido faz tempo. Muito tempo.

Aconteceu num tempo pré celulares e Internet. Era fim de ano e eu estava na fila de uma agência dos Correios, no centro da cidade, para postar os meus cartões de Natal. Pois é, naquele tempo a gente enviava cartões de Natal às pessoas.

Em frente à agência havia uma banca de jornais. A fila se estendia pela calçada e eu estava bem diante da banca quando ouvi o diálogo entre uma senhorinha de lenço na cabeça e o jornaleiro:

- Quanto é esse quadro, seu moço? E apontava com o dedo uma estampa coloridíssima, despida de qualquer resquício artístico, pendurada em meio às revistas.

- Dez real! (A moeda não era o Real, devia ser Cruzeiro, mas uso da minha licença poética para atualizar).

- Dez real...

A senhorinha, testa franzida, começou a mexer numa sacola que trazia ao ombro até encontrar um saquinho de plástico onde havia bolo de notas amassadas e algumas moedas. Contou, recontou, olhou para o ponto de ônibus, calculou o preço da passagem e... não vai dar.

- Falta três real, ela disse, com a carinha mais desapontada do mundo.

O jornaleiro, por sua vez, fez uma careta inexpressiva e virou-se de costas. A senhorinha guardou seu dinheirinho na sacola e dirigiu-se ao ponto de ônibus. Eu a chamei.

- Senhora, senhora, volte aqui. Quanto falta pra senhora comprar a estampa?

Ela olhou assustada, desconfiada e disse numa vozinha sumida:

- Três real...

- Tome aqui. Compra a sua estampa.

Ela olhou pra mim, mais desconfiada ainda, mas meu sorriso a desarmou.

- Obrigado, seu moço, Deus lhe pague!

E, pegando o dinheiro, voltou à banca. A fila andou e eu me afastei um pouco, entrando na agência. Já tinha me desligado daquela cena quando alguém me deu um toque tímido no ombro. Era a senhorinha.

- Deus lhe pague, seu moço. Olha aqui, que beleza. Vou colocar no meu quarto, no meu barraco, bem do lado da Nossa Senhora Aparecida.

Eu olhei para a estampa. Não podia existir coisa mais kitsch, brega, tosca e de mau gosto. A meu ver, claro.

- Olha, seu moço, é direitinho a cabana onde nasci, na roça, lá em Contria, bem do ladinho do Rio das Velhas. Até o flamboyant florido, que nem o que meu pai plantou.

Ô sôdade...

Achei que era um ipê, mas, tudo bem, quem sou pra questionar as saudades dos outros.

A senhorinha me sorriu um sorriso de poucos dentes e entrou no ônibus, levando o seu Van Gogh...

Eu, com olhos marejados, repassei os cartões de Natal que tinha nas mãos. Só gente que eu amava profundamente.

É, sou mesmo muito piegas.

Graças a Deus!

Eduardo Machado