Eu

Publicado em 18/5/2017 por: Eduardo Machado

Desde menino, tenho com as palavras uma relação de amor e, às vezes, ódio.

Paixão é sempre assim...

Cedo, me encantava com aqueles rabiscos que meu pai lia num caderno grande que ele chamava de jornal. Atento, percebendo meu interesse, seu José Lanna me deu, como primeiro presente, um Dicionário!

Com o tempo, fui percebendo que aquela barafunda de riscos ganhava sentido, desenho e estilo. Tinha uma sonoridade, virava sílabas que iam se encadeando, construindo no papel a imagem de um lugar, de um objeto, de um bicho, de uma pessoa. Eu! Eu, inteiro, cabia em duas letras!

Nada é capaz de fazer síntese maior do que possa ser um ser humano.

Palavras eram, para mim, entidades mágicas e algumas logo ganharam vida própria.

A primeira experiência de palavra escrita, de minha autoria, que me ficou na memória é bem longínqua. Eu, criança arteira, achei sobre a cama da minha mãe um batom. Já sabem, né? Em quinze minutos a cama, as paredes, a porta, estavam transformadas em páginas dos meus primeiros passos na literatura. Fiquei surpreso pela falta de incentivo dos adultos.

Logo nos primeiros dias do Jardim de Infância Delfim Moreira percebi que aquelas minhocas que eu rabiscara com o batom podiam ter um significado.

Dona Ilma, com muita paciência, ia guiando minha mão e logo, logo, agora sim, para orgulho dos meus pais, avós e muitas tias, eu era capaz de desenhar o que eles chamavam de ‘nome’.

O tal de nome era grande, cheio de dobrinhas e curvas, e eu me perguntava porque não me chamava ‘Eu’. Ou então, Zé, como meu vizinho.

Mal sabia que ainda me esperava a terrível “ficha”, na qual seria obrigado a reproduzir o nome completo, meu e da minha mãe, o da minha cidade e uma tal de data, que mudava todo dia.

Meu nome era enorme:

EDUARDO JORGE MARTINS MACHADO

O da minha mãe era estranho:

OCARLINA MARTINS MACHADO.

Minha cidade, ao invés de se chamar IBIA, como a do Zé, chamava-se BELO HORIZONTE.

E tinha a DATA, que não adiantava treinar porque mudava todo dia...

Continuo depois para não cansar vocês...

Eduardo Machado, (madrugada de insônia...)