Entrevistas

O combate às desigualdades exige um novo pacto capaz de atualizar os princípios que deram origem ao Estado de bem-estar social. Entrevista especial com Tatiana Roque

Publicado em 21/8/2017 por: Patricia Fachin

A crise da esquerda é “ainda mais profunda” do que os diagnósticos que estão sendo feitos até o momento, porque eles pressupõem a existência de um “projeto de esquerda antenado com a nossa época, logo capaz de disputar a sociedade”. Entretanto, esse projeto “não existe”, constata Tatiana Roque à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

Na avaliação dela, a esquerda “está assombrada pelas mudanças no mundo do trabalho, do qual dependem seus projetos — tanto do ponto de vista das organizações (sindicatos e partidos), quanto da agenda (bem-estar social) ou das lutas (greve)”, porque a esquerda “articulou todos os seus dispositivos em torno do trabalho, mas entendido como trabalho assalariado. Quando o assalariamento entra em crise, todos esses dispositivos se fragilizam”.

A pesquisadora ressalta que diante da intensa automação e robotização que marcam o mundo do trabalho nos dias de hoje, as quais têm como consequência a diminuição da oferta de empregos, a esquerda não tem proposto nada. “Parece que está em negação. Só repete o mantra de que é preciso crescer e gerar empregos”. Segundo ela, a pergunta que tem de ser respondida pela esquerda é: “Como conceber um novo modelo de proteção social para o regime pós-fordista em que estamos imersos? É evidente que a resposta não pode estar associada ao emprego e ao assalariamento. Esse é o ponto fraco da esquerda”.

Uma alternativa à esquerda, sugere, “é retomar um projeto afirmativo a partir da reconfiguração do trabalho no mundo contemporâneo”. Isso significa, segundo ela, “defender a justiça social, a solidariedade”. E explica: “O combate às desigualdades exige um novo pacto, capaz de atualizar, para o mundo contemporâneo, os princípios que deram origem ao Estado de bem-estar social. Mas sem se apoiar no fordismo. Em tempos de polarização, um potencial positivo da renda universal, a meu ver, está em ter adeptos à direita e à esquerda. Isso possibilita um pacto que escape da posição defensiva sobre o custo do trabalho e dos direitos sociais. A renda universal não é uma panaceia e nem vai resolver todos os problemas, mas serve de ponto de partida para uma reflexão sobre propostas efetivas que estejam à altura do nosso tempo”.

Tatiana Roque é graduada em Matemática pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, mestra em Matemática Aplicada e doutora na área de História e Filosofia das Ciências pela mesma universidade. É professora do Instituto de Matemática da UFRJ e da Pós-graduação em Filosofia do IFCS/UFRJ, onde coordena um grupo de estudos sobre as reconfigurações do trabalho no mundo contemporâneo. Atualmente, é presidente do Sindicato Docente da UFRJ - ADUFRJ.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Alguns avaliam que a esquerda brasileira está em crise. Concorda com esse diagnóstico? Quais são as razões dessa crise e quais seriam as possibilidades de enfrentá-la ou superá-la?

Tatiana Roque - A crise é ainda mais profunda do que constatam os diagnósticos que vejo por aí. Há uma tendência a se afirmar que os erros dos governos do PT foram produzidos pela opção lulista de conciliação de classes ou pelo fato de os últimos governos não terem sido realmente de esquerda em algum aspecto. O problema dessa crítica é que ela pressupõe que existe um projeto de esquerda antenado com a nossa época, logo capaz de disputar a sociedade. Eu acho que não existe. Por isso, as ideias liberais acabam tendo mais capilaridade e conquistando muitos jovens.

Nos poucos lugares onde vimos alguma adesão à esquerda, como na campanha de [Jeremy] Corbyn, na Inglaterra, enxergo muito mais uma reação à austeridade e aos ataques neoliberais do que a defesa de um projeto consistente. Alguns temas importantes da campanha foram o welfare state, especialmente o serviço universal de saúde, e a desprivatização das universidades britânicas. Isso é pouco para um projeto do século 21. Seu sucesso mostra que parte considerável da população ainda tem apreço por proteção social e serviços públicos, uma tradição britânica. Mas, se a gente retomar o relatório feito por William Beveridge, logo após a Segunda Guerra, que deu origem ao Estado Social, está escrito que o assalariamento deve ser a figura normativa da coesão social. A seguridade social, a ser criada ali, deveria ir além das diferentes leis voltadas para os pobres e repousava sobre o pleno emprego como perspectiva do regime fordista. O sucesso da proposta estava intimamente relacionado ao bom funcionamento desse regime nas economias centrais. A proteção social acompanhou o crescimento do regime de acumulação fordista na Europa. Quando esse regime entra em crise, por volta dos anos 1970, os princípios do Estado Social começam a se fragilizar. Uma das razões está em seu papel para a reprodução da força de trabalho, demanda específica ao regime fordista.

A pergunta agora é: como conceber um novo modelo de proteção social para o regime pós-fordista em que estamos imersos? É evidente que a resposta não pode estar associada ao emprego e ao assalariamento. Esse é o ponto fraco da esquerda. Tem a ver com isso a fraqueza dos governos social-democratas, que acabam cedendo à pressão neoliberal e, por isso, se desmoralizando diante da população. Será que esse fracasso, bastante generalizado, se deve apenas à falta de vontade política dos governantes? Acho que não.

Vou dizer uma coisa chocante: a direita tem projeto para o século 21 (o neoliberalismo, ainda que fadado a produzir um mundo doente), a esquerda não tem. O projeto da esquerda é ser contra o projeto da direita, o que coloca essa última em posição de superioridade. Claro que não estou levando em conta projetos marxistas ortodoxos, que considero delirantes e só servem de boa consciência para grupos que gostam de se achar radicais (mas que não têm chance alguma de conquistar um apoio social mais amplo). Esses grupos parecem fãs de bandas de rock, cultuando sua própria radicalidade e seus símbolos soviéticos ou cubanos.

A esquerda está assombrada pelas mudanças no mundo do trabalho, do qual dependem seus projetos — tanto do ponto de vista das organizações (sindicatos e partidos), quanto da agenda (bem-estar social) ou das lutas (greve). A esquerda articulou todos os seus dispositivos em torno do trabalho, mas entendido como trabalho assalariado. Quando o assalariamento entra em crise, todos esses dispositivos se fragilizam. A única saída que vejo, portanto, é retomar um projeto afirmativo a partir da reconfiguração do trabalho no mundo contemporâneo.

IHU On-Line - Que aspectos essenciais deveriam ser considerados na agenda econômica de esquerda que, de um lado, critica o neoliberalismo e, de outro, se aproxima, de certo modo, de um modelo desenvolvimentista?

Tatiana Roque - Em primeiro lugar, o desenvolvimentismo se apoia em um modelo de industrialização anacrônico. Hoje, um modelo industrial, para ser competitivo no mercado internacional, precisa competir com os custos do trabalho da China. Propostas como a que Bresser-Pereira lançou recentemente, com um monte de intelectuais, baseada na desvalorização do câmbio para incentivar as exportações, não levam isso em conta. Desenvolvimento só traz algum benefício social se multiplicar empregos, mas não há como tais empregos não serem extremamente precários.

O crescimento durante o segundo governo Lula foi baseado essencialmente em transferências de renda, investimento público, aumento do salário mínimo e do crédito para os pobres. Políticas públicas que, somadas ao aumento da renda dos pobres, estimularam o consumo, fazendo crescer o setor de serviços. Dilma resolveu mudar, pois achava que o crescimento devia ser focado na indústria — para gerar empregos (o mantra!). Talvez ela e sua equipe compartilhassem de certa demonização do consumo típica da esquerda. Deu errado. E não porque foi mal feito. É bem mais grave: esse projeto não tem como dar certo. Hoje, a perspectiva do pleno emprego é a da multiplicação das formas de trabalho de “merda”. Com o perdão da palavra. Mas é inacreditável que ainda se acredite na possibilidade de se gerar empregos assalariados decentes para todo mundo.

As tentativas de um polo industrial baseado em inovação, no Brasil, foram tímidas e até poderiam ter dado certo, mas em setores muito específicos (que são necessários, mas não parecem capazes de resolver o problema do emprego em larga escala). Vivemos numa época de intensa automação e robotização, o que diminui inevitavelmente a oferta de empregos tanto na indústria quanto no setor de serviços. Já existe tecnologia para que esse processo avance ainda mais rapidamente. O que a esquerda propõe diante disso? Nada. Parece que está em negação. Só repete o mantra de que é preciso crescer e gerar empregos, reproduzindo a metáfora de “aumentar o bolo para depois dividir” — não à toa o próprio Delfim Neto esteve próximo dos últimos governos. Mas o que leva a crescer? Ficou provado, no segundo governo Lula, que é distribuir que faz crescer, e não o inverso [1]. Só que cresce o setor de serviços, incluindo muito trabalho autônomo. É surpreendente que alguém que se diz de esquerda não tenha visto o quanto isso era positivo, um verdadeiro laboratório para o século 21. Mas não, preferiram mistificar o Estado e a aliança com o capital nacional.

IHU On-Line - Como, na sua avaliação, a esquerda brasileira tem se posicionado sobre o debate da reforma da previdência e da reforma trabalhista em discussão no país atualmente?

Tatiana Roque - Primeiro, quero dizer que sou contra as reformas propostas pelo governo Temer. Um governo com baixíssima popularidade, acusado de corrupção e apoiado por um congresso comprado não tem legitimidade para propor reformas tão decisivas, sobretudo a toque de caixa, atropelando os movimentos sociais e sem nenhum debate com a sociedade. Meu ponto é que, na disputa de narrativas em torno das reformas, é sinal de fraqueza que a esquerda defenda somente o status quo. Diz-se frequentemente: “nenhum direito a menos”. Nenhum direito a menos para quem tem direitos, mas de forma que se possam conquistar direitos a mais para a maior parte da população (que não tem direito nenhum). Direito, se não é de todos, é privilégio. Por isso, grande parte da população enxerga os funcionários públicos como privilegiados. Isso não é verdade na maioria dos casos. Mas é verdade para um grupo que detém privilégios exorbitantes. Em muitos outros casos, fora do setor público, há privilégios também.

É preciso pensar em estender direitos e, ao mesmo tempo, diminuir privilégios. No Brasil é comum, em uma mesma instituição, haver uma diferença absurda entre o salário mais alto e o salário mais baixo. Esse é um indicador importante. Deveria ser instituído um percentual. Por exemplo, tomando uma dada instituição ou empresa: quem ganha o salário mais alto não pode ganhar mais de x vezes o valor do salário mais baixo. Se a gente fizer um estudo sobre isso, vai ficar abismado.

A desigualdade é muito naturalizada no Brasil, por isso precisamos de reformas. O projeto neoliberal exprime a urgência de reformas em termos de gastos, e nós (que ainda nos dizemos de esquerda) devemos afirmar essa urgência, mas exprimi-la em termos de diminuição das desigualdades. A direita diz: o problema do Brasil é que o Estado gasta demais. A esquerda responde: “não gasta, não” ou “gasto é investimento”. A alternativa está mal colocada. É verdade que o Estado gasta demais, mas porque gasta demais com quem não precisa. Por outro lado, também é verdade que, em certos casos, como na saúde e no ensino público, gasto é investimento. Resumindo, a discussão sobre os gastos públicos é necessária, mas precisa estar vinculada à redução das desigualdades e dos privilégios. Gastar mais com quem tem menos e gastar menos com quem tem mais. Essa parece ser uma boa fórmula para um projeto de esquerda.

IHU On-Line - O que seriam propostas de uma reforma da previdência e uma reforma trabalhista distintivamente de esquerda?

Tatiana Roque - Como disse, uma proposta de esquerda deve ser focada no combate às desigualdades e na diminuição dos privilégios. A direita naturaliza as desigualdades sociais e a esquerda deve retomar a partir daí. É preciso pensar em reformas que cumpram esse objetivo, mas levando em consideração as transformações no mundo do trabalho. Hoje, fala-se muito em uberização. Quase como algo ruim. Claro que é ruim que os motoristas de Uber não tenham direitos e fiquem à mercê da política de preços e de pagamentos da plataforma. Mas, então, que se instituam novas proteções para os motoristas. Não adianta demonizar o Uber, porque vai surgir outra coisa no lugar. Esse tipo de economia veio para ficar, não tem volta. Ao contrário, no caso do Uber, a tendência é avançar para carros sem motoristas. Vamos continuar negando essa realidade? Ou é melhor começarmos logo a debater o tipo de proteção social associada a tipos de trabalho que não passam pela relação salarial? Essas são perguntas que precisam ser respondidas por uma reforma trabalhista de esquerda.

Como proteger trabalhadores com o estatuto dos motoristas de Uber? Como jovens autônomos podem se tornar menos precários sem que, necessariamente, precisem se vincular a um emprego formal? Como melhorar as condições e tornar mais profissional o trabalho doméstico e o trabalho de cuidados efetuado, em sua maioria, por mulheres negras? Como dar mais garantias aos trabalhadores dos serviços ou àqueles que possuem um pequeno negócio? Esses são os trabalhos que as pessoas estão realizando de fato. Os tais batalhadores brasileiros (como designou Jessé de Souza) são os desprotegidos brasileiros. Essas pessoas precisam ser apoiadas naquilo que já fazem e que querem fazer. Pesquisas recentes mostraram que essas pessoas aderem ao empreendedorismo [2]. Que se formule, então, um novo regime de proteção social, inclusive aposentadoria, para quem exerce essas atividades autônomas. Parece um erro crasso chegar para essas pessoas e dizer, como fez a Dilma: estamos dando incentivos para o Joesley investir mais, aumentando a oferta de empregos, e aí você vai ter um emprego formal com todos os direitos a ele associados. No fundo, essa é a mensagem da esquerda desenvolvimentista.

Em outros países, há propostas sendo debatidas diante da constatação de que o emprego formal está desaparecendo. Nos EUA, pesquisas [3] têm mostrado que a substituição de atividades por robôs vai muito além das funções rotineiras e os empregos intermediários tendem a desaparecer rapidamente. Aumentam os empregos pouco qualificados e mal remunerados, bem como os empregos muito qualificados e bem remunerados. Não sei como isso está se dando no Brasil, mas é uma tendência que aumenta a desigualdade, daí a urgência de medidas específicas para lidar com esse cenário. Principalmente, para os jovens, que não têm nenhuma perspectiva para lidar com esse mundo que se anuncia.

Na França, já se pensa em desvincular a proteção social do estatuto jurídico do emprego (que separa assalariados de não assalariados) [4]. Continuaria a existir proteção social, mas associada à atividade profissional, de modo que cada pessoa possa migrar de um trabalho assalariado para um trabalho autônomo (ou acumular os dois), sem perder direitos sociais (como aposentadoria, licenças ou seguro-desemprego). Isso aumentaria, inclusive, a segurança jurídica, diminuindo a judicialização dos conflitos (que parece alta por lá também). A ideia é que os direitos do trabalho que conhecemos, concebidos para uma civilização da fábrica, evoluam para direitos que agrupem todos os tipos de trabalho, sejam eles assalariados ou autônomos, fazendo com que os trabalhadores não assalariados tenham os mesmos direitos dos assalariados. Para isso, é preciso partir de um patamar distinto do estatuto jurídico, que é selado pelo contrato. O novo critério seria a dependência econômica. O trabalhador independente, ainda que seja seu próprio patrão, pode estar sujeito a relações profissionais desequilibradas, se levamos em conta o poder econômico, e isso justifica também algum tipo de proteção. Nessa perspectiva, seria criado um patamar de direitos para o cidadão trabalhador — direitos vinculados à pessoa, e não ao contrato.

IHU On-Line - Por que você diz que o debate sobre a crise da esquerda está reproduzindo os mesmos problemas que levaram à crise da esquerda?

Como o povo vai aderir a um projeto de esquerda centrado no fortalecimento do Estado? A promessa socialista é indissociável do papel do Estado. Ninguém quer ouvir falar de mais Estado.

Tatiana Roque - Porque esse debate tem convocado os mesmos atores de sempre — em geral, homens brancos — e tem girado em torno de avaliações superficiais, que não encaram o desafio teórico-político que temos pela frente. Pobres, mulheres, negros, indígenas, jovens urbanos, cuidadoras, empreendedores de todas as classes e trabalhadores precários não têm aparecido nesses debates (nem como personagens e muito menos como protagonistas). A esquerda se afastou dessas pessoas, ou seja, se afastou da maioria da população e de seus anseios. Quando aparecem, são mistificados ou até negados. Quando pobres da periferia de SP dizem que acreditam no “faça você mesmo”, em valores do individualismo, da competitividade e da eficiência (como em pesquisa recente realizada pela Perseu Abramo), surgem logo interpretações para afirmar que são liberais. Esses valores não são liberais a priori. O rótulo indica apenas a dificuldade da esquerda de lidar com valores que escapam de seu espectro. Por isso, tornou-se autocentrada e mistificadora.

IHU On-Line - De que modo, na sua avaliação, junho de 2013 sugeriu ou motivou uma releitura da esquerda e de suas propostas?

Tatiana Roque - Ali estava muito claro o foco nos serviços públicos, nas demandas dos jovens urbanos e dos trabalhadores precários. Grande parte era de autônomos. Queriam transporte mais acessível, mobilidade, “escolas e hospitais padrão Fifa”. Era preciso avançar por aí e não pela via do emprego. Haddad pergunta, em texto recente na revista Piauí: “como explicar a explosão de descontentamento ocorrida em junho daquele ano, expressa na maior onda de protestos desde a redemocratização? O desemprego estava num patamar ainda baixo; a inflação, embora pressionada, encontrava-se em nível suportável e corria abaixo dos reajustes salariais; os serviços públicos continuavam em expansão, e os direitos previstos na Constituição seguiam se ampliando”. Primeiro, os serviços públicos estavam longe de um patamar satisfatório. Mas fica nítido nessa declaração um ponto de vista economicista focado no emprego. Junho de 2013 estava dizendo que isso não era suficiente. Queriam mais.

A Copa e as Olimpíadas deixaram muito explícitos conluios, no âmbito do poder, que envolviam muito dinheiro. Por isso dizíamos “não vai ter Copa!”. É muita burrice achar que era um enunciado literal. Era a expressão de uma insatisfação com o modelo de desenvolvimento que a Copa simbolizava — crescimento liderado pela Odebrecht e grandes obras. Isso tudo envolvia poder político para certos atores nacionais e muita corrupção. Foram percepções desse tipo que motivaram a insatisfação com o sistema político que explodiu em 2013. Lula teve lampejos de lucidez na época, ao dizer, em outubro do mesmo ano, que os protestos que tomaram conta do país em junho se deveram à melhora no nível de vida dos brasileiros: “Nós tivemos em junho uma lição de civilidade democrática (...). O povo foi para a rua exigir um pouco mais de Estado. O povo foi para a rua para dizer que precisa de mais coisas porque ele aprendeu a comer contrafilé e ele não quer voltar a comer acém. Ele quer comer filé de verdade. Ele quer ser tratado como cidadão de primeira classe”.

Só que depois Lula voltou atrás e, agora, vem dizer que errou ao considerar as manifestações democráticas. O PT não soube ouvir, não soube dialogar e não ousou os novos caminhos apontados pelas ruas. Agora, só resta tratar como inimigos aqueles que estavam apontando as saídas. Chegam até a inventar teorias conspiratórias lunáticas (como a de que uma ação internacional chegou a ser denunciada por Putin e Erdogan, segundo Haddad). Acho que Lula não mudou de opinião. Está agindo eleitoralmente, pois sabe ser útil à sua candidatura polarizar com a direita. Cai como uma luva, para isso, a tese de que a ascensão da direita começou em 2013. Diante disso, ele se apresenta como o único capaz de barrar a direita. Parece jogada eleitoral, mas acaba funcionando como uma espécie de chantagem, fazendo com que as pessoas revejam suas próprias experiências de junho de 2013. Triste e despotencializador. Por isso, é fundamental recuperar a memória de junho, não deixar esse apagamento acontecer.

Hoje, parece estar em curso uma estratégia semelhante ao gaslighting (modo de atuação conhecido do machismo, quando uma mulher é levada a duvidar de sua própria percepção e achar que está louca). A máquina de agitação e propaganda do PT atua por um tipo de chantagem, estimulando o medo e a paranoia. Precisamos de anticorpos contra isso. Não é birra. É a confiança de que junho aponta saídas para uma política antenada com o século 21, que nos permita escapar, ao mesmo tempo, do neoliberalismo e do desenvolvimentismo. Continua sendo importante, portanto, identificar os atores (e as atrizes) que estavam nas ruas, e suas demandas.

IHU On-Line - Recentemente você disse que é irreal achar que a periferia vai votar numa proposta socialista e que a esquerda precisa propor um diálogo realista com a sociedade. Acerca de quais temáticas acha que a esquerda assume uma postura irreal e a partir de qual discurso ela assumiria uma postura mais realista?

Tatiana Roque - O desmonte do Estado de bem-estar social adquire proporções gigantescas no Brasil. Agora será a vez da reforma da Previdência e seguiremos perguntando por que a resistência organizada pela esquerda não consegue mobilizar a população mais pobre, que é sua própria razão de ser. As denúncias que vêm sendo feitas, apontando a intenção neoliberal de diminuir o tamanho do Estado, não parecem suscitar a indignação necessária à mobilização. Mas, pensando bem, por que as pessoas iriam defender um Estado de bem-estar social em abstrato, se não percebem os serviços públicos como proteção efetiva de seus direitos básicos de existência? Ao contrário, a maioria da população ou paga caro por planos de saúde e escolas privadas que funcionam mal ou precisa encarar quotidianamente a situação precária dos postos de saúde e das escolas públicas. Quando experiências tão distintas geram a mesma desconfiança em relação às promessas do Estado, deve-se procurar o erro nas promessas, e não em um suposto conformismo da população.

Se levarmos a sério as percepções e escolhas da população, ao invés de enxergá-la como massa amorfa teleguiada pela mídia, deveremos perguntar qual tem sido o papel do Estado em fornecer alguma garantia de segurança e acesso a direitos básicos de subsistência. A partir dessa constatação, como o povo vai aderir a um projeto de esquerda centrado no fortalecimento do Estado? A promessa socialista é indissociável do papel do Estado. Ninguém quer ouvir falar de mais Estado. Para as pessoas da favela, por exemplo, Estado quer dizer polícia. Só isso. Nunca o Estado ofereceu nada a mais para essas pessoas. Por que iriam acreditar agora?

Há uma dimensão da produção de subjetividade que a esquerda não costuma enxergar. O neoliberalismo é uma forma de governo que atravessa fortemente as subjetividades — esse é o pressuposto de Foucault. O governo neoliberal acena com a figura do empreendedor de si como algo atraente, fingindo serem suportáveis as relações sociais que o sustentam. É preciso enfrentar a disputa com essa promessa no terreno das subjetividades, o que implica propor modos de vida alternativos à subjetividade empreendedora fundada na concorrência, buscar figuras capazes de substituir o self empreendedor. A figura do trabalhador, forjada no modelo da fábrica, é insuficiente para isso [5]. O empreendedorismo é um modo de gestão social que mobiliza desde os empresários propriamente ditos até o setor de serviços e a economia informal, ou seja, enseja modos de vida que tocam a maior parte dos trabalhadores atualmente. Inclui a empreendedora que vende doces, as redes informais, o feirante, a família ampliada e a igreja neopentecostal.

Que antídoto a esse processo ainda é capaz de mobilizar corações e mentes por um projeto que concorra com o neoliberalismo?

Grande parcela dos antigos assalariados, moradores de periferias, dedica-se hoje a um pequeno negócio, como lanchonete, corte e costura, salão de cabeleireiro ou oficina mecânica. A maior parte dessa população empreendedora atribui qualquer melhoria de vida ao esforço pessoal, e quem ainda não tem seu próprio negócio, gostaria de ter (como mostra a pesquisa citada na nota 1). Das grandes corporações às igrejas neopentecostais, é a subjetivação empreendedora que mobiliza diferentes esferas da vida, desde o casamento, os filhos e os amigos até a família ampliada das igrejas — todos participam do networking necessário ao sucesso dos negócios. Mas nem tudo são flores. O self empreendedor sobrecarrega o indivíduo, que deve ser o único responsável por todos os riscos, tendo que assumir sozinho a culpa quando não consegue garantir o básico para si e seus próximos. O endividamento crescente aumenta a culpabilização e a subjetivação neoliberal dá lugar à Fábrica do Homem Endividado [6].

Diante disso, caberia a pergunta: que antídoto a esse processo ainda é capaz de mobilizar corações e mentes por um projeto que concorra com o neoliberalismo?

Há alguns caminhos sendo esboçados. Pela via do trabalho precário e dos cuidados, propostos pelos movimentos negro e feminista. Esses são os únicos projetos em esboço que podem trazer novo vigor à esquerda (apesar de serem poucos nesse campo a valorizar esses movimentos). No 8M, que aconteceu no Brasil este ano, vários grupos de mulheres chegaram a debater o que significa uma greve para os tipos de trabalhos que realizam, bem diferente do trabalho na fábrica. O sindicalismo tradicional não está preparado para encarar essa dificuldade. Minha experiência pessoal mostra isso, pois fui eleita presidente do sindicato de professores da UFRJ criticando a greve como forma de luta, justamente devido à especificidade de nosso trabalho. Hoje, são muitas as formas de trabalho que não têm na greve (concebida como interrupção do trabalho) uma forma de mobilização efetiva.

Um grupo de mulheres espanholas traduziu lindamente essas inquietações, enumerando alguns problemas de fundo: a greve não leva em consideração, pelos próprios pressupostos e formas de ação que a animam, os trabalhos marginalizados, flexíveis, invisíveis, ou seja, os trabalhos ditos precários; a greve também não leva em conta a experiência de exploração e repartição injusta do trabalho doméstico e de cuidados, trabalho invisibilizado e realizado majoritariamente por mulheres (no Brasil, mulheres negras). Esse debate se dá em torno do conceito de reprodução social, que se tornou um terreno de exploração de mulheres, negros ou imigrantes [7]. Diz respeito aos trabalhos de cuidados (pagos ou não), aos trabalhos de comunicação, socialização e produção de bem-estar e modos de vida (que não passam pelo Estado).

Isso vai muito além do que Engels descreveu como formas de produção e reprodução da vida, que tinha como foco o conceito marxista de reprodução da força de trabalho. Algumas feministas, como Silvia Federici, que esteve no Brasil há pouco tempo, mostram que o marxismo nunca considerou plenamente como trabalho (logo, passível de remuneração) tudo que é realizado no âmbito da reprodução social e do trabalho doméstico. Por isso, considero que os movimentos ditos identitários têm um papel fundamental no futuro da esquerda, são eles que vêm fazendo os debates mais interessantes sobre as mudanças no mundo do trabalho. Grupos de mulheres, negras e imigrantes têm produzido reflexões poderosas sobre como se colocar diante do trabalho de reprodução social, que se caracteriza pelo fato de que é a vida, em todas as suas facetas, que é posta a trabalhar.

IHU On-Line - Por que a renda básica é na sua avaliação uma das melhores propostas para reconfigurar a discussão sobre direitos e garantias? Por que sugere que essa proposta se sobreponha a uma proposta de garantir trabalho para todos? Que possibilidade vê de implementar uma proposta como essa no Brasil?

Tatiana Roque - Quando o trabalho incide sobre todas as dimensões da vida, parece natural que a renda se desvincule do trabalho. Mas, além disso, a proposta parte da constatação de que não vai existir trabalho para todo mundo. Diversas pesquisas mostram que os empregos tendem a diminuir. O impacto da tecnologia ultrapassa as tarefas rotineiras (como mostra o artigo de Frey e Osborne citado), o que envolve desde motoristas de caminhão até advogados ou diagnósticos médicos. Não se trata mais somente de atividades baseadas em regras muito precisas. A automação entra em domínios que dependem de reconhecimento de padrões e destreza, e que podem substituir o trabalho em uma gama bem mais ampla de atividades, como transporte, logística, trabalhos administrativos, além do setor de serviços (no qual a oferta cresceu nos últimos anos).

Em 2 de janeiro de 2010, o Washington Post publicou que, na primeira década do século XXI, não foi criado nenhum emprego. Zero. Sendo que a economia estadunidense precisa de um milhão de empregos por ano, só para se manter em fase com o aumento da oferta de trabalho. O livro The Rise of Robots traz evidências de que novos robôs são capazes de estabelecer nexo entre percepção visual, computação espacial e destreza. Ou seja, está ultrapassando a fronteira da automação e vai competir em trabalhos ainda disponíveis para os humanos.

Diante disso, a ideia de uma renda básica universal voltou à cena. Foi defendida por Elon Musk, da Tesla Motors, e pelo Mark Zuckerberg. Também foi abraçada na campanha eleitoral francesa por Benoît Hamon, candidato do PS, apoiado por ecologistas e intelectuais como Thomas Piketty. A renda universal materializa o reconhecimento de que o mundo do trabalho passa por transformações irreversíveis. Reformas na Previdência e nos direitos sociais, aqui e no mundo, apoiam-se no argumento de que a arrecadação é insuficiente, o que se deve, entre outros fatores, à diminuição do número de trabalhadores formais. Diante disso, uma direção afirmativa, que aponte para o futuro, é a dos direitos sociais associados diretamente à pessoa, e não ao emprego.

Defender a justiça social, a solidariedade e o combate às desigualdades exige um novo pacto, capaz de atualizar, para o mundo contemporâneo, os princípios que deram origem ao Estado de bem-estar social. Mas sem se apoiar no fordismo. Em tempos de polarização, um potencial positivo da renda universal, a meu ver, está em ter adeptos à direita e à esquerda. Isso possibilita um pacto que escape da posição defensiva sobre o custo do trabalho e dos direitos sociais. A renda universal não é uma panaceia e nem vai resolver todos os problemas, mas serve de ponto de partida para uma reflexão sobre propostas efetivas que estejam à altura do nosso tempo, possibilitando, ainda, uma reconfiguração das noções que hoje caracterizam — mal — a divisão dos campos políticos entre direita e esquerda.

IHU On-Line - À esquerda, o que é possível esperar para as eleições de 2018? Que articulações está percebendo neste momento?

Tatiana Roque - Nenhuma. Que Lula seja tido como o salvador da pátria, sem que nenhuma avaliação tenha sido feita sobre os erros e acertos de seus governos, só exprime o deserto em que estamos. Sou defensora incondicional das políticas para a democratização da universidade, como cotas e Reestruturação e Expansão das Universidades Federais - Reuni, bem como das medidas de transferência para os pobres, como o Bolsa Família. Mas não acredito que Lula seja ainda uma alternativa. Ele é a personificação de nossa falta de alternativas. Não houve sequer um balanço sobre erros e acertos dos governos do PT e não há motivos para se acreditar que ele faria, hoje, um bom governo. Tanto do ponto de vista político quanto econômico. As propostas de política econômica ventiladas pelas frentes de esquerda próximas a Lula são totalmente antiquadas, requentam um desenvolvimentismo tosco, a ponto de ter alguém como um Bresser na liderança. Cá entre nós, essas propostas são mais conservadoras do que as do próprio Lula durante os primeiros anos. Mas aquela brecha se fechou.

Eu tinha alguma esperança na Rede. Mas a Marina, apesar de não estar tão calada quanto se diz, vem dando declarações pouco contundentes para um momento que clama por renovação e clareza de ideias. Ainda tenho esperança de que esse quadro se modifique. Mas, de todo modo, acho que o principal hoje é o legislativo. Um número razoável de pessoas vem se mobilizando para tentar uma mínima renovação nesse cenário, o que é bastante positivo.

Notas:

[1] A afirmação é baseada em trabalhos de economistas, como os seguintes: Serrano, F. e Summa, R. “Aggregate demand and the slowdown of Brazilian economic growth from 2011-2014”. CEPR Working Paper, 2015; Carvalho, L. e Rugitsky, F. “Growth and distribution in Brazil the 21st century: revisiting the wage-led versus profit-led debate”. Working Papers, Department of Economics, FEA-USP, 2015. (Nota da entrevistada)

[2] Ver pesquisa citada aqui. (Nota da entrevistada)

[3] Frey, C.B. e Osborne, M.A. “The future of employment: how susceptible are jobs to computerisation?”. Technological Forecasting and Social Change 114, pp. 254-280, 2017. (Nota da entrevistada)

[4] Barthélemy, J. e Cette, G. Travailler au XXIe Siècle: L’ubéristion de l’économie? Paris: Odile Jacob, 2017. (Nota da entrevistada)

[5] Desenvolvi um pouco mais essa crítica no artigo “Subjetividades no ponto cego da esquerda” publicado no Le Monde Diplomatique Brasil em 3/02/2017. (Nota da entrevistada)

[6] Título de um livro de Maurizio Lazzarato disponível em francês: La fabrique de l’homme endetté: Essai sur la condition néolibérale. Éditions Amsterdam, 2011. (Nota da entrevistada)

[7] Precarias a la deriva, A la deriva: por los circuitos de la precariedad femenina. Madrid: Traficantes de Sueños, 2004. Agradeço à Alana Moraes, que estuda esse tema, pela indicação desse livro. (Nota da entrevistada)

Patricia Fachin

Instituto Humanitas Unisinos