A Esterilidade da Violência

Publicado em 10/1/2018 por: Maria Clara Bingemer

O ano já começou com as habituais ameaças entre nações. Por um lado, Kim Jong-um, o temível líder norte-coreano, saudou o novo ano declarando que o botão nuclear está sempre ao seu lado, em sua mesa de trabalho. A ameaça dirigia-se claramente aos Estados Unidos e a resposta do presidente Donald Trump não se fez esperar: "O líder norte-coreano Kim Jong-un disse que o botão nuclear está na mesa dele todo tempo. Alguém... pode avisá-lo que eu também tenho um botão nuclear, mas é muito maior e mais poderoso que o dele. E o meu botão funciona!”.

Não! Não são – como poderia parecer - dois meninos disputando vantagem em uma brincadeira de soldados e guerra. São dois líderes mundiais que avisam à humanidade ter ao alcance de suas mãos a destruição ou a sobrevivência do planeta. Se dependêssemos apenas deles, estaríamos agora amedrontados, vivendo talvez os últimos dias de uma humanidade estéril e sem futuro.

Graças a Deus existem outras vozes dirigindo-se a essa humanidade amedrontada que hoje somos. Entre elas destaca-se a do Papa Francisco. Em sua mensagem de Ano Novo, o pontífice não quis enviar ao mundo uma saudação apenas calcada na linguagem e nos símbolos católicos. Dirigiu-se ao mundo inteiro e para isso escolheu uma imagem impressionante: um menino de uns nove, dez anos carregando às costas o cadáver do irmão menor. A foto foi tomada pelo fotógrafo Joseph Roger O´Donnell, após o bombardeio atômico em Nagasaki.

O menino maior está na fila do crematório em Nagasaki esperando sua vez para entregar o pequeno corpo do irmãozinho, vítima fatal da bomba nuclear despejada sobre a cidade. Ereto, de uma seriedade impressionante, o rostinho do menino tem uma dignidade impenetrável. Sua dor só se deixa perceber pelos lábios fortemente apertados e os olhos secos muito abertos.

A legenda da imagem: Os frutos da guerra completa a mensagem. A morte das crianças, a destruição do futuro, esses são os frutos da guerra. Na imagem há duas crianças, uma viva e outra morta. Esta teve sua vida ceifada antes mesmo de começar a desenvolver-se. A maior continua vivendo, mas teve sua infância roubada da maneira mais dolorosa, quando a violência levou seu irmão pequeno. E sabe-se lá que outros membros da família também teriam sido assassinados pela crueldade da bomba.

A imagem não registra adultos. Por que o menino ainda tão pequeno foi encarregado da tristíssima tarefa de levar o cadáver do irmãozinho à cremação? Isso permite suspeitar talvez que os pais não estivessem já presentes, vitimados igualmente pela força destruidora do cogumelo atômico. Parece amarga ironia que hajam sido batizadas de “meninos” (Little Boy e Fat Boy) as duas bombas atômicas que há mais de sete décadas caíram sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, lançadas por aviões norte-americanos. No dia 6 de agosto, o avião Enola Gay deixava cair seu fardo destruidor sobre Hiroshima. Três dias depois era a vez de Fat Boy ser lançada sobre a cidade de Nagasaki. As duas bombas mataram cerca de 140 mil pessoas em Hiroshima e 74 mil em Nagasaki. Este número aumentou expressivamente nos anos seguintes devido às sequelas causadas pela radiação.

Vinicius de Moraes, em sua poesia musicada por Gerardo Rocha e imortalizada na interpretação de Ney Matogrosso, “Rosa de Hiroshima”, alertou a humanidade de memória curta que somos. “Pensem nas crianças mudas, telepáticas. ...Porém não se esqueçam da rosa da rosa.... A rosa de Hiroshima, a rosa hereditária. A rosa radioativa, estúpida inválida. A rosa com cirrose, a antirrosa atômica. Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada.”

Isso parece querer dizer-nos o Papa. Os frutos da guerra são... a ausência de frutos. A guerra é estéril por natureza. Não existe nela o mínimo de fecundidade. Seus frutos são já natimortos e desconhecem o movimento e a beleza da vida. As crianças mudas, telepáticas não estão vivas. Vagam sem esperança ou alegria, carregando a morte às costas como o menino japonês em sua dolorosa dignidade e em seu silêncio mais eloquente que um milhão de palavras. Mortas antes de viver.

As armas – cujos fabricantes foram acusados por Francisco de não poderem ser chamados de cristãos – acabam com a fecundidade do mundo. Só produzem rosas radioativas, estúpidas e inválidas. Só partejam crianças natimortas, assassinadas externa e interiormente. Os frutos da guerra são não frutos. Só a paz é fecunda e dá frutos. Não se preocupa em gerar mais poder, mas vida.

Essas brincadeiras de “meninos” apostando quem tem o arsenal mais poderoso ou o botão que melhor funciona assustam. Sobretudo depois do estrago que os dois “meninos” atômicos fizeram em 1945. Contra isso a voz de Francisco convoca a paz. Não a dos cemitérios ou a da passividade. Mas a paz dinâmica e geradora de vida em abundância, que faz as flores desabrocharem, os frutos serem saboreados e as crianças brincarem livres de correr, saltar, nadar, aprender, ouvir e contar historias. Um 2018 cheio de paz para todos nós.

Maria Clara Lucchetti Bingemer