Entrevistas

Prêmio Nobel da Paz. "Agora Denis poderá salvar um país inteiro". Entrevista com Colette Braeckman

Publicado em 9/10/2018 por: Francesco Musolino

"O Doutor Denis Mukwege não é um político, ele é um profeta. Seu prêmio Nobel premia uma batalha de civilização contra os estupros da guerra". Palavra de Colette Braeckman, belga, decana dos repórteres da África, que contou a história de Denis Mukwege - o médico e ativista congolês que ganhou o Prêmio Nobel da Paz - no livro Muganga. A guerra do Dr. Mukwege (Fandango, 2014).

Colette Braeckman, convidada do último sábado no Festival Internazionale de Ferrara afirma: "Eu estou apaixonada pelo Congo, mas chocada com o que acontece com o corpo das mulheres, mutiladas, estupradas e mortas."

A entrevista é de Francesco Musolino, publicada por Il Fato Quotidiano, 06-10-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Mukwege - que por sua vez havia sido convidado no palco da Internazionale em 2014 - é o médico-chefe de cirurgia no hospital de Panzi, firme opositor do regime de Kabila e com as eleições presidenciais cada vez mais próximas, sua voz está ficando mais forte, "Eles não ousarão matar um congolês que ganhou o Prêmio Nobel por denunciar os estupros de guerra".

Eis a entrevista.

Você já ligou para ele para comemorar?

Este Prêmio Nobel é uma vitória para muitas pessoas que, como eu, se tornaram porta-vozes de uma batalha pela civilização e justiça. Vou ligar para ele hoje à noite!

Como vocês se conheceram?

No início dos anos 2000, acompanhei a guerra em Kivu, uma região no leste do Congo. Ele dirigia a clínica ginecológica no hospital de Panzi. Ele me relatou que chegavam ao hospital que cada vez mais mulheres vítimas de abusos sexuais. Ele queria que falássemos sobre isso, queria fazer algo para mudar o sistema. Ele abriu meus olhos.

Quantas mulheres são vítimas de violência na África?

É muito difícil fornecer um número exato. No hospital de Panzi foram tratadas cerca de 40.000 mulheres e há milhares de mulheres que dependem de cuidados médicos, mas muitas outras morrem durante as violências. O estupro de guerra é uma praga silenciosa.

Quem são os culpados?

Até alguns anos atrás eram perpetrados por mercenários que vinham de Ruanda e agrediam as mulheres e as meninas. Hoje foram instituídos tribunais militares, mas, mesmo assim, a violência foi normalizada e até simples cidadãos congoleses atacam meninas em seus próprios bairros, até mesmo estuprando a vizinha de casa. A violência se espalhou, contagiando as cidades.

As eleições no Congo estão se aproximando e Mukwege é um grande adversário de Kabila. Ele combate um sistema que rouba os recursos do país, baseado na corrupção e violência brutal. Segundo Mukwege, esse sistema está destinado a se perpetuar. O médico não é um político, é um profeta.

Mas um homem sozinho pode mudar o mundo?

Quando está sozinho isso pode ser difícil, mas hoje, com a vitória do Nobel, ele tem toda a atenção da mídia.

Ele teme por sua vida?

Ele já sofreu dois atentados. Matam pessoas próximas a ele para assustá-lo, mas nunca ousarão matar um congolês que ganhou o Prêmio Nobel.

Francesco Musolino, Il Fato Quotidiano

IHU