Espaço Social

A pobreza no mundo, um efeito da injustiça. Um prato de comida significa dois dias de salário no Sudão do Sul

Publicado em 23/10/2018 por: Sergio Ferrari

Com os alimentos desperdiçados poderia se alimentar 800 milhões de pessoas.

A reportagem é de Sergio Ferrari, publicada por Alai, 19-10-2018. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Uma em cada dez pessoas no planeta Terra sofre, em 2018, com o impacto da pobreza extrema, segundo as cifras oficiais dos organismos internacionais. E se bem nos últimos 25 anos, as mesmas estatísticas, indicam que bilhões de seres humanos escaparam dessa categoria, a realidade cotidiana em muitas regiões aporta sinais preocupantes de retrocessos significativos.

Acabar com a pobreza não é uma questão de caridade, mas sim de justiça, enfatizaram as Nações Unidas nesta terceira semana de outubro, em ocasião do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, que se comemorou no dia 17. Reflexão ainda mais atual ao celebrar este ano o 70º aniversário da Declaração Universal de Direitos Humanos e quando se reatualiza o debate sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, o primeiro dos quais tenta terminar com esse flagelo.

Segunda as estatísticas da ONU, 700 milhões de seres humanos vivem abaixo da linha da pobreza, o que significa que contam com menos de US$ 1,90 por dia. Entretanto, limitam as mesmas, seriam 1,3 bilhões de pessoas que padecem de “pobreza multidimensional”, conceito que contabiliza o acesso aos serviços básicos essenciais para levar uma vida digna. Fator ainda mais preocupante: a metade das vítimas são menos de 18 anos.

O drama do custo de um prato de comida

Um mesmo prato de comida, caseira, simples, mas nutritiva, elaborada com ingredientes semelhantes, que assegura um terço das calorias diárias necessárias para uma pessoa, custa, em Nova Iorque, US$ 1,20, o que representa 0,6% do salário diário médio. Não obstante, no Sudão do Sul, representaria mais de dois dias de salário. Isso é, como se um habitante de Nova Iorque tivesse que pagar US$ 350 por esse cardápio.

Na Nigéria, para esse mesmo tipo de alimento, deve se destinar o salário de mais de um dia. Enquanto na Colômbia, Guatemala ou Bolívia, um menu dessa natureza representaria entre 2 ou 2,7% da média salarial diária. Assim aponta o relatório “Contando os feijões: o custo real de um prato de comida em todo o mundo, 2018”, recentemente publicado pelo Programa Mundial de Alimentos da ONU (PMA). Os principais afetados, segundo o estudo, são os países em conflito ou que sofrem diversos fatores de instabilidade.

Causas e fatores da pobreza

Para Antonio Guterres, secretário-geral da ONU, na sua mensagem oficial de 17 de outubro, os conflitos armados, os desastres naturais e as desigualdades crescentes aparecem como obstáculos para o combate contra esse lastre. E chamou a “uma globalização justa que produza oportunidades para todos e que garanta que o desenvolvimento tecnológico impulsará esforços para erradicar a pobreza”.

Conceitos compartilhados, parcialmente, por organizações não-governamentais (ONGs) internacionais, que aprofundam ainda mais a reflexão sobre causas e fatores da pobreza.

“A pobreza é uma epidemia que afeta milhões de pessoas no nosso planeta”, enfatiza a Oxfam Intermón que há anos prioriza sua ação nessa temática. Para a ONG, são 1,4 bilhões de pessoas que sofrem da pobreza extrema e quase 900 milhões padecem de fome, e não tem acesso à água potável a outros serviços básicos como a saúde e a educação.

Na pedagogia da dita ONG, o conteúdo, entretanto, é mais contundente. No seu site, a Oxfam destaca que antes de explicar quais são as causas da pobreza no mundo, é importante clarear entre fator e causa. “As causas são situações que levam ao desenvolvimento da pobreza, enquanto um fato pode manter essas condições de pobreza durante longo tempo dado que não permitem uma solução”, explica.

“Diferentes instituições estudaram as causas da pobreza. Porém, é preciso ter em conta que cada território e cada situação é diferente, na qual falar da casuística geral é mais que complexa”, destaca. E se coloca a analisar os fatores que favorecem a manutenção desse flagelo.

Entre eles, o modelo comercial multinacional, com o desenvolvimento de grandes corporações que usam recursos e mão-de-obra barata em países em risco de pobreza, empobrecendo-os ainda mais.

A corrupção, que subtrai recursos essenciais que deveriam estar destinados para as áreas sociais. Sem subestimar o impacto das mudanças climáticas, enfermidades e epidemias. Outros fatores: o desperdício dos alimentos, que implica que com os gastos de 800 milhões de pessoas que padecem de fome, a discriminação de gênero, os conflitos armados e o crescimento exponencial do número de habitantes no planeta. Entretanto, segundo a mesma ONG, um dos fatores mais preocupantes, segue sendo, o desinteresse dos países desenvolvidos para acabar com a pobreza.

Sergio Ferrari, Alai

Instituto Humanitas Unisinos