Espaço Social

Tem um buraco azul no céu do Movimento Negro

Publicado em 25/10/2018 por: Éle Semog

Uma das brincadeiras que meu pai costumava fazer, quando eu tinha os meus sete, oito anos de idade e com os meus irmãos mais novos, era de apontar para o céu, quando estava com aquele azul intenso e dizer: “Olha lá crianças, tem um buraco azul no céu”. Eu olhava, e olhava, e olhava, mas quase sempre não conseguia enxergar o tal buraco azul. Certa feita, depois de mais uma vez não enxergar o tal buraco lhe perguntei, tentando demonstrar esperteza: “Mas pai, então tem um buraco na casa de Deus?”. Ele, sorrindo por baixo do bigode grisalho, me respondeu: “Não... na casa de Deus não tem buraco, pois Deus mora em Aruanda”.

Os anos se passaram, as brincadeiras e jogos infantis com meus pais e meus irmãos deram lugar a pequenas e regulares obrigações na divisão dos trabalhos domésticos. O ingresso no curso ginasial elucidou muitos daqueles mistérios celestiais. As aulas de ciências e a matéria de astronomia foram liquidando com os meus mitos, um por um: o céu é azul porque a luz que vem do Sol, em forma de ondas, se dispersa quando chega e se choca com a camada de gases e partículas de ar que existem na atmosfera, provocando um reflexo de cor azul..., a tal Estrela Dalva é na verdade o planeta Vênus, o segundo do Sistema Solar e é um dos corpos celestiais mais brilhante, juntamente com o Sol e a Lua; aliás a própria Lua que é iluminada pelo Sol e não tem luz própria, produz movimentos de rotação, revolução e translação, produzindo as fases conhecidas como Nova, Crescente, Cheia e Minguante e, ao contrário do que eu acreditava, a imagem de São Jorge que aprendi a ver nas noites de lua cheia, é na verdade imagens dos mares lunares, vastas planícies, que a crendice e o sincretismo brasileiros transformaram em São Jorge, Oxóssi e Ogum. É obvio que o aprendizado da astronomia detonou o meu signo Sagitário e as previsões de que “coisas boas podem acontecer no fim do dia”. Anos depois, aprendi com um poeta, que Aruanda é uma espécie de céu, paraíso, para onde os africanos e seus descentes retornam depois dessa vida.

Desde os anos de 1980, quando o movimento negro ampliou e nacionalizou suas pautas de reivindicações, realizando encontros estaduais, regionais e nacionais, promovendo o surgimento de novas instituições para atuação nas áreas de interesse da comunidade negra, notadamente, educação, saúde, direito, literatura, economia, cultura, religião, a grande bandeira que nos identificava era a da luta contra o racismo, numa perspectiva solidária, que se distinguia pela intenção de crescimento coletivo e participativo da comunidade negra, em detrimento dos princípios meritórios e individualistas, que caracteriza uma das faces mais cruéis do pensamento liberal, de que é necessário manter na sociedade uma permanente luta de um contra todos e de todos contra todos.

Até aos anos 2000, a impressão que reinava era de que o movimento negro estava sob o manto de um sereno e perene céu azul. A ação política das organizações e instituições negras, principalmente nas capitais dos estados pareciam alcançar todo o país. A pulsão vigorosa da cultura negra, sua estética e suas expressões, produziam um vigor que alimentava a autoestima, duma forma que há muito a população negra não experimentava. Jovens retomaram a identidade religiosa de matriz africana, inclusive com o uso público de roupas e aparatos religiosos, as tradições da culinária e nutrição afro-brasileiras se revigoraram, e também o uso das ervas para a medicina caseira (e simpatias) como o saião, canela de velho, urtiga, quebra-pedra, aroeira, comigo-ninguém-pode, babosa. Até mesmo os banhos contra mau olhado e rezas para curar espinhela caída tiveram lugar. Mas esse capital cultural não foi suficiente para se impor a um outro capital, o político que se estruturou de forma reativa e avassaladora contra as conquistas da comunidade afro-brasileira.

Havia a nítida impressão de que todos os negros estavam mergulhados num mar progressista e emancipatório que, naturalmente no Brasil, costumamos atribuir ao pensamento de esquerda. A ideologia conservadora atingiu a comunidade negra, primeiramente pelo viés religioso, demonizando a condição social do preto pobre pelo seu vínculo e sua crença nos orixás, que foram e são demonizados e combatidos de tal forma que só Jesus poderia leva-los ao bem-estar material e, se não for possível nessa vida, ao reino do céu e da bonança. Nesse ponto Aruanda já não tem mais sentido para nenhum negro convertido.

Outros descendentes de escravizados, que adquiriram instrução escolar ou profissional mediana, por conta da violência histórica e pela aceitação memorial de que seu lugar é aquele reservado para os negros, não conseguiram se apropriar de direitos como as cotas, a criminalização do racismo, o Estatuto da Criança e do Adolescente e mesmo da demarcação das terras quilombolas, julgando que essas conquistas não adiantam para nada, pois que qualquer negro muito esforçado consegue alcançar o seu lugar ao sol.

A tática do movimento negro, entendo agora, se concentrou em buscar direitos atuando nas brechas que a Constituição e o estado democrático possibilitaram e não investiu na disseminação dessas conquistas no seio da população negra. A própria ideologia faz com que o sujeito imerso na pobreza busque alternativas de superação por meios individuais. A reação coletiva e solidária para a superação das adversidades não tem a menor chance de sucesso diante de tais emergências individuais. Os ícones da branquitude retomaram a força e se manifestam de forma vigorosa no seio da comunidade negra como, por exemplo, nas ilusões de igualdade produzida pelo voto no processo eleitoral. A branquitude vai inoculando indivíduo por indivíduo e sugando aqueles que poderiam ser sujeitos coletivos da sua própria emancipação e da sua própria história. Uma coisa é certa, vai dar muito trabalho para tampar esse imenso buraco que foi feito no céu do movimento negro.

Éle Semog