A realidade política é mais contingente e permeável do que parece

Publicado em 5/2/2019 por: Luiz Eduardo Soares

Tomo a liberdade de lhes propor um experimento mental, um exercício reflexivo cientificamente improcedente, porque fundado em argumento contrafactual. Embora inconsistente, essa prática especulativa já rendeu frutos no passado remoto da filosofia política e pode nos ser útil para pensar a conjuntura.

Em 22 de agosto de 2018, o DataFolha publicou sua última pesquisa sobre intenção de voto com Lula no páreo: Lula tinha 39%; Bolsonaro, 19%; Marina, 8%; Alckmin, 6% e Ciro, 5%. O Instituto realizou também o levantamento sem que o nome de Lula constasse do elenco de candidatos. Nesse caso, o resultado foi o seguinte: Bolsonaro liderava com 22% das intenções de voto e era seguido por Marina, com 16%, Ciro, 10%, Alckmin, 9%, Álvaro Dias, 4%, e Fernando Haddad, com os mesmos 4%.

Observe-se que, em 13 de abril, segundo o DataFolha, enquanto Lula tinha 31% das intenções de voto, Bolsonaro aparecia em segundo lugar, com 15%. Em 10 de junho, dois meses depois, a mesma fonte atribuía 30% a Lula e 17% a Bolsonaro. Ou seja, ambos oscilavam na margem de erro. Portanto, o fato mais relevante que se passou entre o período de estagnação e os dois meses e meio subsequentes, isto é, entre 10 de junho e 22 de agosto, foi o crescimento da candidatura Lula, de 30% para 39%, e a permanência das perspectivas eleitorais de seu rival, na faixa 17%-19%.

No dia 5 de setembro, o IBOPE anunciava que, em cenário sem Lula, Bolsonaro tomava a frente da disputa com 22% das intenções de voto, seguido por Ciro e Marina, com 12%, Alckmin, 9%, e Haddad, 6%.

No dia 6 de setembro, Bolsonaro sofreu o atentado. Em 11 de setembro, o PT lançou Haddad à presidência, ante o veto judicial que excluiu Lula da disputa. Daí em diante, a história é conhecida: Haddad sobe rapidamente, herdando parte do eleitorado de Lula (passa, segundo o DataFolha, de 4%, em 21 de agosto, a 9%, em 10 de setembro, e a 13%, em 14 de setembro) e Bolsonaro avança (vai de 22%, em 21 de agosto, a 24%, em 10 de setembro, e a 26%, em 14 de setembro), beneficiando-se da focalização midiática decorrente do atentado e da ausência justificada dos debates, nos quais o baixo desempenho vinha se mostrando incapaz de manter sua candidatura competitiva.

A escalada dos dois líderes prosseguiu nas semanas seguintes: Haddad chega a 16%, no dia 20 de setembro, e Bolsonaro a 28%. A disputa se acirra e Haddad se aproxima de Bolsonaro, em 29 de setembro, conforme o DataFolha: o petista atinge 22%, enquanto o representante da ultradireita continua com os mesmos 28%. O quadro autorizava expectativas otimistas quanto ao desempenho do ex-prefeito de São Paulo. Por outro lado, parecia que o estoque de deslocamento de adesões em direção a Bolsonaro, derivado da empatia com a vítima, se esgotava.

No sábado, 29 de setembro, realizam-se, em todo o país, as grandes manifestações Ele-Não, contra o capitão e deputado federal, Jair Messias Bolsonaro. Na terça-feira, dia 2 de outubro, nova pesquisa DataFolha indicava movimentação dissonante com a dinâmica anteriormente verificada: Bolsonaro, 32%; Fernando Haddad, 21%. O primeiro voltara a crescer. Agora era Haddad que parecia ter perdido impulso. Pesquisa divulgada no dia 4 de outubro confirmava a nova tendência, ou a retomada daquela anteriormente observada, provisoriamente interrompida: Bolsonaro atingia 35% e Haddad oscilava na margem de erro para 22%. O candidato da ultradireita disparava, enquanto Haddad patinava. Nos votos válidos, 39% a 25%. E isso, vale reiterar, na sequência do movimento EleNão. Na véspera do primeiro turno, o mesmo instituto informava que Bolsonaro alcançaria 40% dos votos válidos, Haddad receberia 25%. Esse quadro provocou o temor, nas hostes progressistas, de que o candidato do PSL vencesse já no dia 7 de outubro.

Aos poucos, foi ficando claro o que ocorrera: embora de grande importância, até mesmo para o futuro do campo progressista no Brasil, o movimento EleNão antecipou a lógica do segundo turno para o primeiro, tornando Bolsonaro, na última semana do primeiro turno, o polo de agregação dos eleitores suscetíveis a serem atraídos pelo discurso anti-petista, neoliberal e conservador. Essa dinâmica quase lhe deu a vitória, mas, sobretudo, facilitou sua jornada no segundo turno, fazendo com que sua candidatura largasse na dianteira com ampla vantagem. Sabemos que a expectativa de triunfo é um dos principais fatores de agregação em torno de uma candidatura, em especial no segundo turno.

O resultado do primeiro turno confirmou as pesquisas: Bolsonaro teve 46.03% e Haddad, 29,28%. Ciro ficou em terceiro, com 12,47%.

No dia 10 de outubro, o primeiro DataFolha relativo ao segundo turno dava 49% a 36%, a favor de Bolsonaro. A distância abriu-se ainda mais, até que a candidatura Haddad iniciou um processo vigoroso de recuperação, tomando as ruas e enchendo de esperança seus eleitores. No dia 18, Bolsonaro atingia 59%, contra 41% de Haddad, na pesquisa sobre votos válidos. Na véspera da eleição, o prognóstico era 56% a 44%, a favor de Bolsonaro. O resultado final, em 28 de outubro, foi um pouco mais apertado: 55,13% a 44,87%.

A que servem todos esses dados? Qual o ponto? O ponto, na verdade, são dois: (1) O segmento social que, efetivamente, se identifica com Bolsonaro e o escolheria entre as várias opções oferecidas pelo cardápio eleitoral de 2018 é composto por cerca de 20% dos eleitores brasileiros. (2) O impulso que catapultou a candidatura da extrema direita para a vitória foi composto, principalmente, por três fatores: (a) a exclusão de Lula da disputa; (b) o atentado contra Bolsonaro, que, paradoxalmente, o salvou dos debates e o converteu em foco das atenções midiáticas benignas e empáticas; (c) a precipitação da lógica do segundo turno, ainda no primeiro, fruto da combinação entre dois elementos: o movimento EleNão (evidentemente, virtuoso, em si mesmo) e o antipetismo, fenômeno tóxico, estigmatizador, que não se confunde com crítica ao PT.

Se é assim, permito-me a ousadia, certamente nada científica, de formular uma hipótese contrafactual: não fora excluído da disputa por intervenção política do judiciário, Lula teria plenas condições de vencer as eleições, malgrado o antipetismo. Dizendo-o de outro modo: não é absurdo supor que, não excluído, Lula poderia vencer a disputa eleitoral. Atenção: não digo que ele venceria, digo, o que de resto é um truísmo, que ele poderia vencer. Recordemo-nos que, em 22 de agosto, ele liderava, amplamente, com perspectivas de vencer inclusive no primeiro turno. Um mês e meio separa aquela última pesquisa, com seu nome incluído no elenco de opções, do dia 7 de outubro, data em que se realizou o primeiro turno, ou dois meses separam aquela pesquisa que lhe dava 39% do dia 28 de outubro.

Daqui, passo à reflexão conclusiva: não é absurdo supor que, hoje, poderíamos estar experimentando o início do terceiro mandato presidencial de Lula. Muito bem, de que vale essa afirmação? Eis seu valor heurístico: essa afirmação nos permite relativizar o que pensamos ser a realidade atual. Ora, se esse país sobre o qual nos debruçamos, hoje, é o mesmo que poderia ter elegido Lula, onde está a realidade tão firme, estável, espessa, densa, irremovível com que, parece, nos deparamos, o Brasil-de-Bolsonaro, o Brasil-neofascista? Há, portanto, se o raciocínio faz sentido, muito mais espaço para mudança do que talvez estejamos dispostos a considerar. A realidade politicamente construída é muito mais fluida e contingente do que talvez suponha nossa crença no real-histórico como algo fixo, estável, plantado em raízes estruturais permanentes. O que está diante de nós é muito mais frágil e precário do que acreditamos. Foi produzido por circunstâncias e manobras, e pode ser transformado pela ação da sociedade, pela política com P maiúsculo. Se Lula tivesse vencido, teríamos de dizer o mesmo. Em suma, nem com Lula seríamos uma sociedade progressista, comprometida irreversivelmente com o avanço democrático radical, nem com Bolsonaro somos uma sociedade irremediavelmente neofascista, ainda que haja tantos desses ingredientes venenosos impregnados e em fecundação. A realidade é mais porosa do que parece, mais permeável à ação humana.

Luiz Eduardo Soares